terça-feira, 22 de Julho de 2014

Histórias da Casa Branca: o que esconderão os separatistas russos?

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 21 DE JULHO DE 2014:

Na guerra, a primeira vítima é a verdade
Ésquilo, dramaturgo da Grécia Antiga 

Putin diz que apoia as investigações, mas essas palavras devem ser correspondidas com atos

O fardo está agora do lado da Rússia: são eles que têm que travar os separatistas de esconderem provas

Ainda acredito numa solução negociada para o problema ucraniano, mas se a Rússia não mudar a sua estratégia, as sanções terão que continuar e podem ser aprofundadas
BARACK OBAMA, Presidente dos EUA


No mínimo, a tragédia do abate do voo MH17 da Malaysian Airlines vai mudar o tom da crise ucraniana. No máximo, a data de 17 de julho de 2014 será mais recordada do que, por esta altura, temos ideia. 

Vamos por partes. 

Quatro dias depois da queda do Boeing 777 da Malaysian Airlines em solo ucraniano, mantêm-se as dúvidas sobre o essencial: quem e porquê realizou tão inacreditável atentado?

Mas as suspeitas de que terá sido um erro (e que quem disparou foram forças separatistas russos) são tão grandes que as ondas de choque políticas, diplomáticas e militares já se fizeram sentir.

O desaparecimento dos corpos do local da queda (colocado nu «comboio da morte») está documentado em fotos e foi confirmado no terreno por observadores da OSCE.

A máxima de Ésquilo, acima citada, tem sido particularmente poderosa nesta crise. As «rasantes» à verdade têm sido tantas que, quatro dias depois da tragédia, começa a ser difícil acreditar que a «verdade toda» seja mesmo apurada, um dia. 

Vladimir Putin tem tentado minimizar danos políticos e de imagem. 

Numa altura em que a Austrália, fortemente afetada com a tragédia, até já equaciona tentar banir a presença do presidente russo na próxima cimeira do G20, Putin tem rejeitado sempre qualquer responsabilidade do Kremlin e, num vídeo libertado para os media internacionais, até fez questão de mostrar que iniciou reunião com os seus conselheiros com «um minuto de silêncio em memória das vítimas», precedido de declaração em que se solidariza com as famílias das vítimas e com os governos dos países afetados diretamente pela tragédia. 

Mas o «contorno» russo não se fica por aqui. O ministro da Defesa de Moscovo lançou, nas últimas horas, nova «pista»: a de que um avião de guerra ucraniano esteve perto da rota do MH17, nessa fatídica tarde de 17 de julho, ao mesmo tempo que garantia que os radares russos não deteraram «qualquer míssil terra-ar».

A «contra-informação» parece clara, depois das autoridades norte-americanas terem já sido perentórias na acusação de que o avião foi mesmo abatido «por um míssil terra-ar».

Todo o argumentário usado pelos líderes políticos americanos nos últimos dias (Obama, Kerry, até a ex-secretátia de Estado e provável candidata presidencial, Hillary Clinton) assenta na firme convicção de que só os separatistas russos podem ter cometido aquele erro trágico, uma vez que o míssil que provavelmente abateu o avião, um «Buk» é fabrico russo. 

Em declaração prestada na Casa Branca, esta segunda-feira, Obama foi mais longe e questionou: «O que esconderão os separatistas russos». O Presidente norte-americano coloca do lado russo o «fardo de travar a ocultação de provas», reforçando que «as famílias das vítimas merecem conhecer a verdade». 

Perante posições tão diferentes, entre Washington e Moscovo, o mais provável é que, nos próximos dias, a crise ucraniana seja agravada depois depois da tragédia da queda do MH17. 

Por coincidência, horas antes da queda do avião, a via das sanções económicas contra a Rússia havia sido agravada por Washington. Só a Gazprom tinha sido, por enquanto, poupada. 

Mas a Administração Obama já lançou o «conselho» aos «amigos» europeus: convém começar a encontrar alternativas ao gás russo. 

O sinal não poderia ser mais esclarecedor. 

Histórias da Casa Branca: ponto de não retorno com a Rússia?

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 18 DE JULHO DE 2014: 

«É uma terrível tragédia»
Barack Obama, Presidente dos EUA

«Todos os indicadores apontam para que tenham sido os separatistas russos a abater o avião. Depois deste caso, os países europeus devem sentir-se encorajados a endurecer sanções contra a Rússia»
Hillary Clinton, ex-secretária de Estado norte-americana

«O que aconteceu é absolutamente chocante. Os responsáveis têm que pagar por isto»
David Cameron, PM britânico

«Esta tragédia não teria acontecido se houvesse paz naquela região ou se os combates no terreno não tivessem reatado. A responsabilidade, sem qualquer dúvida, é do governo do território onde aconteceu tragédia assustadora. Isto é absolutamente inaceitável»
Vladimir Putin, presidente russo


Uma tragédia inimaginável. Um caso gravíssimo que afeta relações entre estados, cumplicidades entre líderes.

Um recuo brutal num caminho que teria que ser feito de reaproximação entre Washington e Moscovo, depois do clima de divergências nos últimos meses, por causa da Crimeia e do agravar da tensão no Leste da Ucrânia.

Um avião comercial ser abatido nos céus da Europa por um míssil que, tudo indica, será de fabrico russo poderá ser algo de muito próximo de um «ponto de não retorno».

A queda do Boeing 777 da Malaysia Airlines, em solo ucraniano, numa zona próxima da fronteira leste com a Rússia, em pleno cenário de conflito entre as forças armadas ucranianas e separatistas russos que proclamaram a «República Popular de Donetsk», gerou a maior tragédia da aviação civil dos últimos 18 anos, com a morte de 298 pessoas (283 passageiros e 15 tripulantes). 

No momento em que esta crónica é escrita, tinham sido apuradas as nacionalidades de 189 holandeses, 44 malaios, 27 australianos, 12 indonésios, nove britânicos, quatro alemães, quatro belgas, três filipinos, um canadiano, um neo-zelandês, um chinês (Hong Kong) e um israelita. 

Para lá da enorme tragédia humana, o caso implica fortes repercussões políticas e mexe com várias sensibilidades diplomáticas. 

Nos minutos que se seguiram à tragédia, começou o «passa culpas» entre Kiev e Moscovo. O governo ucraniano, primeiro através do seu ministro do Interior, mais tarde pelo primeiro-ministro da Ucrânia, foi claro em apontar responsabilidades aos rebeldes russos, a quem acusaram de terem cometido «um ato terrorista». 

Putin, que ao longo de todo o conflito no Leste da Ucrânia manteve a posição de demarcação com os separatistas que combatem as autoridades ucranianas (apesar dos rebeldes serem, grande parte deles, antigos elementos das forças armadas russas), responsabilizou o governo de Kiev por esta «tragédia assustadora». 

Washington reagiu de forma crítica para com Moscovo. Obama, no Delaware, preferiu não apontar claramente o dedo a Putin, mas lembrou tratar-se de «uma grande tragédia». Enquanto isso, os serviços secretos norte-americanos libertavam a indicação de que haveria mesmo dados a apontar para que um míssil terra-ar tivesse sido a causa da queda do voo MH17.

O dado reforçava a acusação de que pudesse ter sido um míssil de fabrico russo, material que supostamente estará na posse dos rebeldes russos. De Moscovo, para lá da recusa dessa acusação, vinham também indicações de chefes militares, apontando para que as forças armadas ucranianas também possuam mísseis «Buk». 

Nas redes sociais, mensagens postadas minutos depois da tragédia por elementos separatistas, nomeadamente por Igor Girkin (ou Igor Strelkov), auto-proclamado ministro da Defesa da República Popular de Donetsk, festejava o abate de um avião. 

Terá sido um engano? Terão os separatistas pensado ter abatido um «Antonov» ucraniano?

Os próximos dias serão decisivos para percebermos se ainda há caminho para trás na relação com a Rússia. Mas nada ficará como antes.

sexta-feira, 11 de Julho de 2014

Histórias da Casa Branca: o novo atoleiro iraquiano

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 10 DE JULHO DE 2014


Há um novo atoleiro a ser formado no Iraque.

E o pior é que representa uma ameaça real bem superior à que, em 2003, levou a Administração Bush a avançar Bagdade para derrubar Saddam.

Há mais de um década, George W. Bush quis terminar o trabalho que o pai, no início dos anos 90, optou por deixar a meio, quando já tinha os marines à porta da capital iraquiana. 

Onze anos depois, Barack Obama pode ver-se obrigado a fazer regressar os olhos da América para a antiga Babilónia, já sem qualquer ilusão de «espalhar a democracia», mas pela necessidade premete de conter um «novo califado». 

Peter Mansoor, adjunto do general David Petraeus, elemento importante na estratégia de estabilização do Iraque em 2007/08, é muito claro: «É preciso refazer a aliança anti-Al Qaeda». 

Em entrevista ao Expresso, a 21 de junho passado, o coronel Mansoor já lançava o aviso: «Devemos orientar o nosso esforço para a diplomacia, discutindo com as elites políticas iraquianas e com os atores regionais, sejam estes o Irão, a Arábia Saudita, a Turquia ou a Jordânia. O caminho é político e não militar e um governo de unidade nacional no Iraque é prioritário». 

Uma visão que, por isso, caucionava a primeira leitura do Presidente Obama: «Um ataque militar sem enquadramento político não faz sentido e só serve para matar gente». 

A grande questão, no entanto, fica por resolver: como travar a ameaça do ISIS (EIIL, se quisermos usar o acrónimo), o Estado Islâmico do Iraque e do Levante? 

O poder militar do exército radical de Abu Bakr Al-Baghdadi não implicaria, de início, ameaça assim tão significativa: «O ISIS nunca poderá conquistar Bagadade. Além das forças armadas iraquianas, que defenderam a capital com muito mais energia do que o norte do país, o ISIS teria de lidar com dezenas de milhares de homens armados das milícias xiitas. Estamos a falar de uma cidade com sete milhões de habitantes, maior do que Estalinegrado, durante a II Guerra Mundial. Seria uma fortaleza. Em 2003/04 comandei uma brigada durante a invasão, ou seja, 3500 homens bem treinados, armados até aos dentes e, mesmo assim, tivemos dificuldade em controlar dois distritos de Bagdade. Imaginar militantes montados em «pick-ups» a tomar conta da cidade é fantasia», insiste o coronel Mansoor nessa entrevista. 

Perante esta visão das cúpulas militares americanas, fica mais fácil perceber a via escolhida por Obama para endereçar aquela que será, neste momento, a maior ameaça no quadro internacional (com a situação na Ucrânia e a tensão crescente Israel/Palestina em forte concorrência). 

Os Estados Unidos não irão voltar a enviar «boots on the ground» para o Iraque. Ponto. Mas intervêm de forma cada vez mais evidente: reforçando a oposição síria, interessada direta no combate aos «jihadistas» no Iraque.

Obama já pediu autorização ao Congresso para armas as forças moderadas de oposição a Assad, numa espécie de «jogada dois em um»: esse reforço posiciona os EUA como opositores ao regime de Damasco e aumenta os trunfos na travagem ao ISIS no Iraque. 

A América cometeu vários erros na gestão do Iraque na última década. O principal terá sido o desmantelamento das unidades de força e segurança iraquianas, que hoje teria papel fundamental na nova ameaça «jihadista». Fartos do governo de Al Maliki (xiita, com patrocínio indireto dos EUA e do Irão), muitos iraquianos são terreno fértil para recolha de apoios dos «jihadistas» sunitas. 

Mariano Aguirre, diretor do Norwegian Peacebuilding Resource Center, avisa, em entrevista ao DN: «O ISIS vai ser um terramoto na região do Médio Oriente. Nos últimos dez anos, estabeleceu uma série de alianças. O fenómeno é perigoso, pode levar à desintegração do Iraque, ter impacto forte no Líbano e na Jordânia».

Voltaremos em breve ao tema. Infelizmente.

sexta-feira, 4 de Julho de 2014

Histórias da Casa Branca: Obama não é «o pior Presidente» mas pode ficar com a fama

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 3 DE JULHO DE 2014:

Será Barack Obama «o pior Presidente desde a II Guerra Mundial»? Claro que não. 

Um levantamento pelos triunfos do Presidente, desde que tomou posse a 20 de janeiro 2009, desmonta essa ideia: aprovação da Reforma da Saúde, o maior programa federal desde o «New Deal» de Roosevelt e maior investimento numa área social desde a «Grande Sociedade» de Johnson; eliminação de Bin Laden e outros líderes da Al Qaeda; redução drástica da noção de «risco de terrorismo» em solo americano; aposta em novas energias e crescimento dos EUA como potência energética.

Acima de tudo isto, como condição necessária para todas as outras conquistas, Obama ficará para a História como o Presidente que evitou que a América caísse numa Grande Depressão económica equivalente ou pior à dos anos 30, graças a fortes estímulos federais, e foi preparando a Economia americana para um crescimento lento, mas sustentado, e que se traduz, nos últimos cinco anos, na criação de nove milhões de empregos. 

Recuperar o que se perdeu é sempre mais custoso do que gozar os louros de algo que foi conquistado. Como em tudo na vida, também em política demora muito mais construir do que destruir. 

Obama beneficiou do desastre da parte final de Bush (2008) e da colagem artificial de Romney à ala direita dos republicanos (2012). 

Mas, chegado aos últimos dois anos e meio do seu segundo mandato, ainda não conseguiu resolver este dilema: como candidato presidencial, foi eficaz e brilhante, em dois momentos políticos bem diferentes (venceu claramente as corridas de 2008 e 2012), muito devido a uma máquina eleitoral especialmente bem montada; como Presidente, nunca conseguiu passar no teste da popularidade, sendo quase sempre visto pelos americanos como um líder impopular. 

Sondagem recente da Universidade de Quinnipiac aponta para que um terço dos inquiridos considerem Obama «o pior Presidente desde 1945». O atual inquilino da Casa Branca aparece mesmo em primeiro lugar nesse top indesejado, seguido do seu antecessor, George W. Bush, com 28%, e de Richard Nixon, o único Presidente destituído do cargo, com 13%.

É sempre preciso olhar para este tipo de sondagem com alguma perspetiva. 

Por um lado, é normal que as pessoas se lembrem mais de quem está a exercer o poder. E atendendo ao elevado grau de contestação de vários setores conservadores e ultraconservadores a este Presidente, esse tais 33% que apontam Obama como «o pior» nem será um valor assim tão elevado. De resto, a soma de Bush filho com Nixon, ambos republicanos, até é superior ao valor indicado para Obama. 

Seja como for, há alguns aspetos a apontar: Obama estará a pagar, essencialmente, por duas questões que possivelmente já não vai conseguir resolver, no seu «legado» como 44.º Presidente dos EUA. 

A primeira tem a ver com o modo exerce o poder de «líder do país mais poderoso do Mundo». A forma como tem lidado com assuntos como a Síria, a Ucrânia e agora também a nova ameaça iraquiana, optando por uma política de «contenção» e «dissuasão», deixando de longe as «boots on the ground», numa via de apoio a outros países e atores diretamente envolvidos nos focos de conflito, integra-se na sua visão do Mundo, mas colide com quem, na América, o acusa de estar a «diminuir a força dos EUA». 

A segunda é o «gridlock» com o Congresso. A paralisia legislativa que tem marcado os anos Obama está a adiar, ou mesmo anular, ideias fundamentais deste Presidente, como o «gun control» ou o apoio à classe média e aos mais desfavorecidos. 

O problema será mais do sistema da «contrapesos» da política americana, não tanto de uma visão errada do Presidente. Mas em política o que conta são as perceções. 

Não. Barack Obama está longe de ser «o pior Presidente desde a II Guerra Mundial». Mas corre o risco de ficar com essa fama

sexta-feira, 20 de Junho de 2014

Histórias da Casa Branca: depois do choque, a reação republicana

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 20 DE JUNHO DE 2014:


Depois do choque, uma reação rápida. Veremos se as consequências políticas serão suficientes para travar males maiores. 

Primeiro, o choque: Eric Cantor, influente congressista da Virgínia, um dos líderes ideológicos da «resistência conservadora» aos anos Obama, entrou para a história política da América com um constrangedor «recorde negativo» de ter sido o primeiro líder de uma maioria partidária no Congresso que não conseguiu manter o seu próprio assento na Câmara dos Representantes. 

E nem sequer foi numa luta eleitoral com o «outro lado da barricada». 

Na verdade, Eric, peça importante na negociação no verão de 2011, com o Presidente, por um acordo que travasse ao último minuto o «default» das contas americanas, nem sequer chegou, desta vez, à eleição geral de novembro, para as midterms: caiu a meio do caminho, perdendo as primárias do seu próprio partido para David Brat, um representante da fação extremista, muito pouco identificado com as «regras de negociações» de Washington. 

Do ponto de vista político, a derrota de Eric Cantor foi vista, no Capitólio, assim como uma espécie de... «tsunami». Entre as cúpulas partidárias, seja do lado republicano mas mesmo do lado democrata, ninguém sequer imaginou que tal coisa podia acontecer: um líder de uma maioria perante a humilhação de não ser legitimado pelos seus próprios companheiros de partido no estado que representa em Washington.

Sentido o choque, as ondas do impacto ainda se fazem sentir, duas semanas depois de tão inesperado evento. Até os congressistas republicanos, que nestes anos Obama deram tantas provas de autismo político, perceberam que tinha aparecido aqui uma espécie de... cartão vermelho.

Muitos analistas no espaço mediático americano identificaram uma espécie de... fim do Partido Republicano, na sua formulação clássica e previsível, disposta a negociar com «o outro lado», aberta a «reach across the aisle» e a conversar com um Presidente democrata, mesmo quando os pontos de contato são quase nenhuns. 

Em poucos dias, a reação: mudança rápida das lideranças republicanas no Congresso. 

Kevin McCarthy, congressista eleito pela Califórnia (estado cosmopolita e liberal), é o novo líder da maioria na Câmara dos Representantes, e Steve Scalise, congressista republicano da Luisiana, passou a liderar a «majority whip».

Há uma preocupação de renovação, não tanto geracional (Eric Cantor é um político relativamente jovem), mas de modelo de congressista. A intenção, clara, é dar a vez a republicanos que ainda não estejam demasiado conotados com os «old habits» de Washington: ambos na casa dos 40 em idade, Steve só é congressista há seis anos, tendo ficado com o lugar que era de Bobby Jindal, quando o americano-indiano foi eleito governador daquele estado sulista; Kevin, de apenas 39 anos, ganhou o lugar de congressista pelo 23.º distrito da Califórnia em 2007.

O primeiro passo de McCarthy e Scalise será conseguir um estilo de liderança mais compatível com John Boehner, o «speaker» do Congresso, também ele congressista republicano, eleito pelo Ohio, e também ele com dificuldades crónicas, durante a era Obama, de fazer a ponte entre a guerra política com os democratas e a pressão da ala extremista da direita americana, vulgarmente conhecida como «Tea Party».

Nas intercalares de há quatro anos, essa ala obteve um número impressionante de assentos, passando assim a poder influenciar, muitas vezes desvirtuar, o jogo político no Capitólio.

Esta mudança de líderes terá sido a última tentativa do GOP de se precaver para um novo «tsunami» em novembro, que lhe poderia comprometer o ataque à Casa Branca em 2016. 

Será suficiente?

sábado, 14 de Junho de 2014

Histórias da Casa Branca: dureza com Moscovo, clareza com Paris

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 9 DE JUNHO DE 2014:


Barack Obama apontou fronteiras claras na questão ucraniana. E assumiu-se como o elemento mais forte entre os líderes internacionais que pretendem travar a ameaça russa. 

De forma especialmente simbólica, Obama falou em Varsóvia, ao lado do seu homólogo polaco, em frente a poderosos F16, mostrando que a América está de regresso ao palco europeu no seu lado mais bélico. 

A mensagem ia direitinha para Moscovo, perante a insistência de Putin de se manter na Crimeia e perante a instabilidade em várias cidades do Leste da Ucrânia. 

A presença de Putin nas comemorações dos 70 anos do Dia D foi dado novo no clima de alta tensão que marcou os últimos meses, desde a jogada imprevista na Crimeia. 

Putin e Obama ainda não tinham estado cara a cara desde o estalar da crise, apesar de algumas conversas telefónicas, todas elas tensas e com trocas de acusações entre os líderes políticos de Moscovo e Washington. 

Na Normandia, um «estranho encontro», como lhe chamou Julie Pace, na Associated Press, não deixou claras as conclusões da breve conversa de um quarto de hora entre Vladimir e Barack. 

Vale a pena seguir o relato de Julie Pace na AP: «Obama era todo sorrisos à medida que os líderes se reuniam nos degraus que davam acesso do grande Chateau de Benouville para a foto de grupo. Tomou o seu lugar na fila da frente, ao lado da Raínha Isabel II e acenou e apertou a mão a vários líderes. Mas o Presidente dos EUA evitou sempre qualquer tipo de contato com Putin, quando o líder russo tomou o seu lugar, bem perto. Hollande, a rainha Margarida da Dinamarca e a Rainha Isabel de Inglaterra serviram de escudo de proteção entre Putin e Obama. Feita a foto, Obama esteve um pouco com a raínha de Inglaterra, enquanto Putin foi indo com Hollande, a caminho do almoço. Mas os dois pares ficaram quase lado a lado, com Obama tão perto de Putin que facilmente poderia até tocar-lhe nos ombros. Em vez disso, Obama continuou a conversa com a rainha de 88 anos. Mais que uma vez, ele diminuiu o passo, pondo alguma distância a Putin. Não havia «media» presentes na conversa Obama-Putin dentro do castelo, que assessores descrevem como «informal». 

Quase todos os sinais dos últimos dias confirmam uma via forte do Presidente dos EUA em relação ao problema no Leste da Europa: apoio ao novo presidente da Ucrânia, com fornecimento de armamento americano para Kiev e promessas de ajuda efetiva; reforço das sanções a Moscovo, dando a Putin «um prazo de três ou quatro semanas para recuar nas ameaças para que essas sanções não permaneçam».

Obama mantém discurso claro para com Putin: o alívio das sanções económicas depende, essencialmente, do reconhecimento de Moscovo do novo presidente ucraniano, eleito a 25 de maio. 

O novo presidente ucraniano vê a Crimeia «como espaço Ucrânia», mas terá direito a ter o embaixador russo em Kiev na sua tomada de posse. Mesmo que não o admita, Putin estará a dar sinais de desgaste pelo nível de sanções a que a Rússia tem estado sujeita.

E, por falar em sanções, os últimos dias marcaram também alguma tensão entre Washington e Paris pelo facto da França ter vendido material a Moscovo que se incluiria no pacote de restrições imposto à Rússia.

No caso BNP Paribas (banco francês condenado pela justiça americana a pagar multa pesadíssima de 16 mil milhões de dólares por ter emprestado dinheiro, entre 2001 e 2009, a países como Sudão, Irão e Cuba, que estão na «lista negra» das sanções), Hollande e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Lauren Fabius, foram especialmente críticos dos EUA, queixando-se da «desproporção da coima».

O tema foi falado entre Obama e Hollanda, na Normandia, mas o Presidente dos EUA foi muito claro: «Não me meto em questões judiciais. Não telefono ao Departamento de Justiça».

domingo, 8 de Junho de 2014

Histórias da Casa Branca: o caso Bergdahl e o trunfo Poroshenko

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24PT, A 6 DE JUNHO DE 2014:


Os últimos dias têm sido intensos na estratégia internacional de Obama. 

O Presidente tem estado na berlinda dos «pundits» de Washington por ter aceite a troca de cinco prisioneiros talibans pela libertação do sargento Bowe Bergdahl, que esteve em cativeiro por cinco anos.

Trocar prisioneiros com o inimigo nunca é operação completamente limpa. A ideia de negociar com quem tenta fazer mal à América gera aversão imediata a muitos setores nos EUA e há mesmo correntes democratas que desaprovam a jogada do Presidente. 

Obama fez questão de receber, na Casa Branca, os pais do sargento libertado e, numa polémica muito discutível, o aspeto do pai de Bergdahl (a exibir barba que a muitos lembrou um estilo próximo de terroristas inimigos da América) agravou o ambiente político e mediático da questão. 

A coisa piorou quando, nos últimos dias, se somaram dúvidas, vindas de indicações que supostamente algunas congressistas republicanos terão, sobre se Bowe Bergdahl não seria, em vez de vítima, um «traidor» à América, por suposta conversão a ideais que ameaçam a segurança e os interesses dos americanos.

Mesmo assim, Obama mantém: «Não peço desculpas por esta decisão e por esta troca», lançou ontem, em conferência de Imprensa conjunta com o primeiro-ministro britânico, David Cameron. 

«Nunca me surpreendo por haver polémicas alimentadas nos corredores de Washington, ok? Essa não é a questão essencial», reforçou o Presidente. 

O caso promete ter novos desenvolvimentos, à medida que se foram descobrindo pormenores da captura ocorrida em 2009 e que, supostamente, terá documentação ainda não totalmente libertada por parte do Congresso. 

A verdade é que há, da parte do Presidente, mais um claro sinal da sua leitura de que o momento é de reduzir o peso de Guantanamo Bay (era lá que os cinco prisioneiros taliban, entregues ao governo do Catar, estavam) e de reforçar a noção de «regresso a casa» por parte dos militares americanos, aliviando a dor das famílias. 

No manual da doutrina Obama, este tinha tudo para ser um caso de «win-win», não fossem os últimos desenvolvimentos. 

Hillary Clinton, provável nomeada presidencial democrata em 2016, escreveu sobre o tema no livro que irá lançar na próxima semana. A obra recorda memórias de Hillary nos quatro anos na chefia da diplomacia americana e tem um título esclarecedor quanto à dificuldade do cargo: «Hard choices» (escolhas duras). 

Maggie Haberman, no Politico.com, antecipa uma das frases escritas pela ex-secretária de Estado, em claro apoio à visão do Presidente e em jeito de críticas para quem o atacou: «Abrir uma porta de negociação com os taliban é sempre um caminho muito difícil de engolir por parte de muitos americanos, depois de tantos anos de guerra». 

Enquanto isso, na frente ucraniana, a estratégia de «contenção» da ameaça russa teve dados positivos nos últimos dias. 

Obama deixou claro apoio ao processo eleitoral ocorrido a 25 de maio passado em Kiev, e que ditou uma vitória claríssima de Poroshenko, o «rei do chocolate», como novo presidente ucraniano. 

A posição da Administração americana, secundada por outras chancelarias na Europa, obriga, no mínimo, a uma desaceleração da ameaça russa sobre Kiev. Pelo menos, para já. 

A cimeira do G7, que terminou ontem em Bruxelas, reforçou a noção de isolamento de Putin. Pela primeira vez em muito tempo, a Rússia ficou de fora do clube dos países mais poderosos. E enquanto mantiver a atitude de agressão no Leste europeu, assim continuará a ser. 

Obama forçou Hollande a jantar duas vezes na passada quinta-feira, ao recusar sentar-se na mesma mesa de Putin. É certo que, depois, nas comemorações dos 70 anos do Dia D, Putin recebeu várias convites para encontros bilaterais («business obliges...»), mas o sinal de isolamento foi dado.

segunda-feira, 2 de Junho de 2014

Histórias da Casa Branca: tempo de mudança na Administração Obama

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 2 DE JUNHO DE 2014:


Na Casa Branca vive-se um tempo de mudança. 

Jay Carney, que depois de dois anos na equipa de Joe Biden foi o porta-voz da Administração Obama desde 2011, abandonou esta difícil função de dar a cara nos momentos de falar pelo Presidente, ao fim de três anos na função. 

Na hora do adeus, Obama destacou «o incrível profissionalismo de Jay» e admitiu que, por ele, «isto não aconteceria neste momento». 

Para o lugar de Carney foi nomeado Josh Earnest, jornalista com duas décadas de experiência na cobertura de Casa Branca, que há alguns anos tem vindo a trabalhar próximo de Obama, tendo sido o principal responsável pelas relações com os media durante a campanha de reeleição, em 2012. 

Mas esta não foi a única mudança de peso no governo Obama, nos últimos dias. 

Eric Shinseki, antigo general do exército norte-americano, nascido no Hawai (como Obama) com ascendência japonesa, abandonou o posto de secretário dos Veteranos.

Shinseki, ele próprio veterano da Guerra do Vietname, saiu na sequência de um escândalo sobre más condutas em hospitais para veteranos. 

O Presidente aceitou a demissão, embora explicando que Eric não teve responsabilidades diretas no que correu mal. «O seu serviço ao país é inatacável. Trabalhou duramente para tentar perceber o que correu mal, mas disse-me que havia a necessidade de mudar para que o problema seja resolvido.» 

Obama apontou Sloan Gibson como «a pessoa indicada para preparar da melhor forma as estrutura de apoio para os veteranos de guerra, adequadas aos tempos que vivemos». Mas ainda não o indicou como sucessor de Shinseki no posto de secretário dos Veteranos de Guerra.

Estas duas saídas (nenhuma com relevância política decisiva, mas com algum peso afetivo, porque tanto Carney como Shinseki eram relativamente próximos do círculo pessoal do Presidente) ajudam a definir o arranque da última etapa dos anos Obama.

A dois anos e meio da eleição que definirá a sua sucessão na Casa Branca, Obama prepara a reta final reunindo, cada vez mais, objetivos claros: a criação de um legado, não tanto a preocupação com pormenores que fazem as delícias do dia-a-dia de Washington. 

Na passada quinta-feira, um almoço (que não estava marcado na agenda oficial, mas que a Casa Branca não se preocupou muito em esconder), entre Barack Obama e Hillary Clinton constituiu outro sinal de que há novas etapas a iniciarem-se na Casa Branca. 

Hillary estará ainda muito longe de assumir seja o que for quanto a 2016. Mas começa a ficar perfeitamente claro que a secretária de Estado do primeiro mandato de Obama terá a passadeira vermelha estendida para a nomeação democrata, incluindo o apoio político e logístico do Presidente.

«Não sei o que ela vai fazer em 2016, mas tenho a certeza que poderá ser uma Presidente efetiva e capaz», considerou Obama em entrevista televisiva recente.

Enquanto isso, em West Point, no discurso anual na mais prestigiada academia militar que forma a elite do complexo militar norte-americano, Barack Obama lembrou a sua perspetiva de «contenção»: «Não é por termos o melhor martelo que vamos achar que todos os nossos problemas são um prego».

Uma definição comunicacionalmente atraente da tese segundo a qual o poder militar americano entrou, sobretudo desde que Obama é Presidente, numa fase instrumental. 

Mais importante do que, em termos efetivos, esse poder bélico, na Casa Branca entende-se como mais útil e mais realista um uso profilático desse poder: a «contenção» substituiu o «efeito eventualmente preventivo» que Bush quis fazer valer no Iraque. 

Os anos Obama ainda não acabaram, mas é muito provável que venham a ser recordados como a era do pragmatismo levado ao limite.

segunda-feira, 19 de Maio de 2014

Histórias da Casa Branca: Imigração, uma reforma bloqueada

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 19 DE MAIO DE 2014:

A questão demográfica foi fundamental para a reeleição de Barack Obama, há precisamente um ano e meio.

O radicalismo do Tea Party puxou a agulha ideológica dos republicanos demasiado para a direita e isso comprometeu a abordagem de Mitt Romney no momento decisivo. 

Com mais de 70% do voto latino e do voto asiático, e mais de 90% do voto negro, Barack Obama arrebatou fatia esmagadora dos 28% de «não brancos», compensando assim perda ligeira nos 72% de brancos (52/48 para Romney). 

A «batalha demográfica» deu a Obama o segundo mandato porque uma demografia de 1992, por exemplo, quando da fácil reeleição de Bill Clinton, com muito menos peso das minorias no mapa eleitoral americano, talvez não fosse suficiente para dar nova maioria ao 44.º Presidente dos EUA. 

Se as convicções políticas e ideológicas do Presidente não fossem suficientes, este facto ajudaria bastante: até por motivos de gratidão eleitoral, a reforma da Imigração estaria sempre no topo da agenda presidencial, neste segundo mandato. 

Obama deu provas, nos últimos anos, de ter sido dos primeiros políticos de topo na América a perceber claramente que os EUA estão a mudar. 

E que o axioma de que «os americanos são maioritariamente brancos, protestantes e conservadores» não é imutável, tem vindo a sofrer transformações.

Os meses que se seguiram à reeleição pareciam proporcionar um ambiente político mais propício à aprovação de uma reforma que permitisse um enquadramento legal mais realista e compreensivo para os cerca de 12 milhões de imigrantes ilegais na América. 

À direita, o GOP dava sinais de querer moderar-se, depois da derrota com dimensões inesperadas nas presidenciais de 2012. 

Marco Rubio, uma espécie de «candidato presidencial feito à medida» (é jovem, representa minoria em ascensão, os latinos, é senador num estado eleitoralmente crucial, a Florida), tentou tomar as rédeas da discussão no seu partido, com vontade de fazer algumas pontes com o Presidente. 

Mas os últimos meses retiraram quase todo o tipo de ilusões. A palavra de ordem nos republicanos no Congresso em toda a era Obama é mesmo «bloquear». 

Uma atitude que não deixa de causar perplexidade, a partir do momento em que se percebe que o próprio eleitorado republicano apoia, com larga maioria, uma reforma da Imigração (64% dos republicanos estão a favor da aprovação, um pouco menos que os 78% de democratas e 71% de independentes).

O mesmo estudo, publicado pelo «Politico.com», mostra que 41% dos hispânicos «apoiam fortemente» a ideia, bem mais que os 28% de brancos e 17% de afro-americanos. Se alargarmos a análise ao mero «apoio», a tese da aprovação da reforma passa folgadamente.

Junto do eleitorado, o clima de consenso em relação ao tema parece atingido. Mas o sistema político de Washington obedece a dinâmicas com razões que a Razão desconhece.

Perante a perspetiva da eleição de 2016 ser disputada entre Hillary Clinton e um republicano como Jeb Bush, Marco Rubio ou Chris Christie, é de admitir que a imigração se mantenha como um tema forte de campanha. 

Histórias da Casa Branca: Hillary, trunfos e fantasmas

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 13 DE MAIO DE 2014:


No campo democrata, quase todos já se dizem «prontos para Hillary Clinton».

As sondagens mostram que a vantagem da ex-secretária de Estado para a corrida à nomeação democrata para 2016 é demasiado grande para poder ser revertida (faltam dois anos e meio para a eleição geral, pelo que a decisão das nomeações partidárias já começa a mexer). 

É claro que nisto de eleições presidenciais na América, nunca se sabe o que pode acontecer. 

Muitos analistas têm recordado, nos últimos meses, que para a nomeação democrata de 2008, Hillary chegou a ter avanço considerável sobre Obama e Edwards, mas acabaria por ser Barack o nomeado. 

Sendo essa uma constatação dos factos, a verdade porém é que a diferença agora é de mais do dobro: Hillary nunca teve vantagem superior a 25/30 pontos em 2007/2008. Para 2016, parte com avanço entre 50 a 70 pontos percentuais. 

Nem sequer se vislumbra uma ameaça séria ao «consenso Hillary» junto das bases democratas (que parecem dispostas a dar a Hillary a hipótese que só não deram já em 2008 porque entretanto apareceu o fenómeno Obama) e nas elites do partido (basta atentar a inúmeras declarações, nos últimos meses, por parte de governadores democratas, membros do Congresso e até antigos candidato presidenciais e/ou membros das Administrações Clinton e Obama. 

Hillary parte com o favoritismo, os apoios, a máquina (a que usou na campanha Hillary 2008 e uma boa parte da máquina eleitoral de Obama 2008 e 2012) e o dinheiro: há Super PACS bem financiadas que já estão no terreno a organizar eventos de angariação de fundos, com nomes fortes dos democratas como cabeças de cartaz. 

O que pode correr mal, então, ao projeto «Hillary for President 2016»? 

Em primeiro lugar, não é certo que Hillary Clinton tenha saúde para enfrentar uma coisa violenta como uma campanha presidencial americana. São quase dois anos a dormir muito pouco, a viajar de estado para estado, num país enorme. 

Hillary, que no final do mandato como secretária de Estado acusou alguns problemas de saúde preocupantes, não tem dado mostras de esse vir a ser um ponto inibidor de uma candidatura. Mas terá 69 anos em novembro de 2016 e, caso seja eleita, arranca para possivelmente oito anos que só terminarão quando Hillary já estará a caminhar para a casa dos 80. 

Será um problema para ela, depois de dois mandatos do quarto mais jovem Presidente da história americana?

Se for, não é certamente o único. Uma parte da direita americana, catalisada pelo fervor hostil da FOX News, tem recordado ao limite o «caso Bengasi», ocorrido em setembro de 2012, e que redundou no assassinato do então embaixador norte-americano na Líbia e doutros três funcionários diplomáticos americanos. 

A então secretária de Estado Hillary Clinton é acusada por parte da direita de não ter feito tudo para proteger os diplomatas americanos no terreno e de não ter sido conclusiva no inquérito ocorrido posteriormente no Congresso. 

Nos últimos dias, de forma um pouco descontextualizada, «ressuscitou»... Monica Lewinsky, que nos anos 90 quase levou Bill Clinton ao «impeachment». Mera coincidência? Difícil de acreditar. 

O reaparecimento mediático de Monica Lewinsky pode ter segundas intenções políticas, possivelmente para recordar aos mais esquecidos e contar ao eleitorado mais jovem esse episódio tortuoso para a história política e pessoal do casal Clinton. Mas Hillary já deu provas mais do que suficientes que está preparada para isso e para muito mais. 

Ganhe ou perca em novembro de 2016, ela parece ter tudo para vir a ser a primeira mulher a liderar o mais poderoso país do Mundo.

A piada do Presidente Obama no jantar anual com os correspondentes da Casa Branca é reveladora: «Quando me for embora, talvez a Fox News tenha dificuldade em garantir que Hillary Clinton nasceu no Quénia...»

terça-feira, 13 de Maio de 2014

Histórias da Casa Branca: dois anos e meio para definir o pós-Obama

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 9 DE MAIO DE 2014:


A exatamente dois anos e meio da eleição que definirá o sucessor de Obama na Casa Branca, a tendência mantém-se bem distinta nos dois campos partidários.

Do lado democrata, não se vislumbra como poderá Hillary perder a nomeação. 

Sondagem Fox News aponta quase 70% de preferências à secretária de Estado no primeiro mandato presidencial de Obama (69%), o que confere a Hillary uma vantagem que não é enorme: é gigantesca. 

Clinton tem mais 55 por cento que o segundo colocado do campo democrata, Joe Biden (14%), sendo que o terceiro nome a aparecer, Elizabeth Warren, já declarou várias vezes que não pretende concorrer, pela simples razão de que encontra alternativa melhor: «A minha candidata é Hillary Clinton», aponta a senadora do Massachussets.

Politicamente, Hillary tem a nomeação democrata controlada. Até pode ir alimentando a dúvida sobre o momento em que irá avançar, desde que queira mesmo tentar ser a 45.ª Presidente dos Estados Unidos da América. 

A base de apoio político e eleitoral de Barack Obama está claramente com Hillary. 

Rahm Emanuel, «mayor» de Chicago, foi conselheiro muito próximo de Bill Clinton durante as administrações de 1993 a 2001 e apoiou Hillary nas primárias de 2008. 

Mesmo tendo preferido Hillary a Obama, viria a ser a primeira nomeação política de Barack, logo após a vitória eleitoral de novembro de 2008. Rahm foi «chief of staff» da Casa Branca, uma espécie de primeiro-ministro num sistema de governo presidencialista. 

Já fora da Administração Obama, Rahm parece ter voltado em força ao «universo Clinton»: em junho, vai falar em dois grandes eventos de angariação de fundos de Super PAC de apoio à candidatura de Hillary. E aponta, claramente, ao «Politico.com»: «Hillary é inteligente, determinada e, mais importante do que tudo, é a campeão da defesa dos interesses dos americanos. Quando trabalhei com ela na Casa Branca, vi a líder forte que era, como por exemplo quando falou de Direitos Humanos em Pequim, ou da forma como defendeu o Children¿s Health Insurance Program».

Por tudo isto, Rahm Emanuel, um dos democratas com mais capacidade para mexer os cordelinhos nas bases do partido, sentencia: «Se ela avançar, estou atrás dela a apoiar. Acho que ela vai avançar, mas isso só ela saberá dizer. Se Hillary concorrer, estou com ela».

Bem diferente é a situação no campo republicano. Continua a não haver um claro «frontrunner». 

Chris Christie tinha alguns trunfos para despertar atenções, mas primeiro o «BridgeGate» e, mais recentemente, problemas sérios nas contas do governo estadual estão a transformar o carismático governador da Nova Jérsia de sério pretendente a potencial «trouble maker» da corrida republicana. 

As últimas semanas proporcionaram a Jeb Bush, antigo governador da Flórida, uma espécie de «momento de provar que será uma alternativa a Christie como potencial candidato da ala moderada do GOP». 

Mas Jeb terá exagerado na dose: o irmão e filho dos últimos dois presidentes republicanos (GW e GH Bush) falou demasiado em «compaixão» perante os imigrantes ilegais, definido mesmo como «act of love» e não como violação à lei a tentativa de passar a fronteira ilegalmente, em nome do «sonho americano».

A ideia pode agradar ao centro e aos democratas, mas provoca aversão na base que Jeb terá que convencer, se quiser ser o adversário de Hillary para 2016: os ultraconservadores, uma parte do Tea Party e a América profunda. 

Rand Paul, senador do Kentucky, mantém-se bem posicionado para agarrar os setores mais à direita, mas nesse campo há outros pretendentes: Mike Huckabee, Ted Cruz ou até Rick Santorum, que em 2012 foi o segundo republicano mais votado.

Pelo meio, Paul Ryan e Marco Rubio podem vir a assumir um papel intermédio, captando apoios de diferentes segmentos do universo republicano.

segunda-feira, 5 de Maio de 2014

Histórias da Casa Branca: o «declínio» e poderes que regressam

«Enquanto o Presidente Obama viaja pela Ásia, a crise da Ucrânia domina as atenções. Mas também estão questões, que se arrastar há vários anos, sobre se a América começa a ser, de alguma maneira, um poder em declínio que cederá o seu espaço de influência à China, nos próximos anos. O número de revistas e de capas de livros com alguma variante da tese de ¿Estarão os melhores anos da América atrás de nós?¿ poderia encher uma biblioteca. E é, por isso, importante que americanos e asiáticos percebam, de forma clara, que os Estados Unidos não estão em declínio. Os Estados Unidos, na verdade, estão num caminho de grandes oportunidades e a América do Norte está talhada a liderar o Mundo nas próximas décadas. As provas estão à volta de nós: a Economia dos EUA está a voltar a carburar, fortalecida pela nova energia e pelas revoluções tecnológicas. Tudo isso deve providenciar um renovado sentimento de confiança numa parte do Mundo que supostamente estaria a sofrer um declínio»
Michael O'Hanlon, investigador do Council on Foreign Relations, e David Petraeus, general, antigo comandante das tropas americanas no Iraque e no Afeganistão, co-chairman do Council on Foreign Relations Task Force on North America 


A narrativa de que a América está a perder o seu papel dominante nas relações mundiais até poderia ser poderosa. Mas sempre que olhamos para os factos, percebemos que há um grande problema com essa tese: é que ela, simplesmente, não é verdadeira. 

As últimas semanas foram particularmente significativas nesse aspeto. 

As últimas semanas têm mostrado que os EUA continuam a ser um país decisivo. Sobretudo quando «velhas ameaças» parecem querer regressar em forçaÀ medida que a crise ucraniana se foi agravando, e perante a reação ambígua da União Europeia, rapidamente se percebeu que só uma intervenção diplomática eficaz por parte de Washington poderá começar a conter a ameaça do «urso de Moscovo».

Em artigo publicado na revista «Foreign Affairs», Walter Russel Mead aponta: «Até agora, o ano de 2014 tem sido tumultuoso, à medida que as rivalidades geopolíticas regressaram à ribalta. Seja com as forças russas que tomaram conta da Crimeia, seja com a agressividade da China nas zonas costeiras, provocando resposta assertiva do Japão, ou ainda com o Irão a tentar usar as suas alianças com a Síria e o Hezbollah para dominar o Médio Oriente, várias formas de «poder antigo» estão a voltar em força nas relações internacionais». 

Para aquele conhecido investigador, «os Estados Unidos e a União Europeia procuram, pelo menos, trilhos para enfrentar a nova perturbação. Tanto os EUA como a Europa preferiam pôr de parte as preocupações sobre questões geopolíticas «do passado», como o território ou o poder militar e focar-se em temas como a «global governance»: liberalização do comércio, não-proliferação nuclear, direitos humanos, estado de direito, alterações climáticas. Na verdade, desde o fim da Guerra Fria, o mais importante objetivo dos EUA e da Europa, nas suas políticas externas, tem sido o «shift» das relações internacionais, da «soma zero» para uma relação «win-win». Sermo forçados a voltar a temas «old-school» como a situação na Ucrânia não só diverge atenções, tempo e energia para os focos essenciais, como altera o caráter da política internacional. À medida que a atmosfera fica cada vez mais tensa e sombria, a tarefa de promover e manter a ordem mundial fica cada vez mais arriscada».

A escalada russa nas cidades ucranianas tem mostrado ser, nos últimos dias, um caminho demasiado perigoso para poder ter solução definitiva para breve. 

Mas o que é certo, aconteça o que acontecer, é que uma saída de custos reduzidos dependerá sempre da habilidade diplomática e da força política que, nos próximos tempos, o Presidente Obama e o secretário de Estado John Kerry vierem a mostrar. 

Quem disse que deixou de valer a pena prestar atenção à atualidade internacional?