segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Histórias da Casa Branca: um reprovação embaraçosa no Senado

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 14 DE ABRIL DE 2014:


«Nem consigo acreditar que em 2014 ainda estejamos a discutir a igualdade de pagamento para trabalho igual entre homens e mulheres»
Elizabeth Warren, senadora democrata do Massachussets


«É embaraçoso que os Estados Unidos ainda não tenham conseguido atingir o objetivo de «equal pay for equal work»
Barack Obama, Presidente dos EUA 


A imposição de que homens e mulheres sejam pagos da mesma forma perante trabalhos de igual responsabilidade e diferenciação é uma ideia que, embora nem sempre praticada, parece pacífica no quadro europeu.

Mas parece ainda não ser assim na América. Desde o primeiro mandato, o Presidente Obama tem-se batido por avanços significativos nesta área e, não por acaso, teve no «Lilly Ledbetter Fair Pay Act», aprovado em 2009, uma das primeiras vitórias ideológicas da sua governação. 

Assinado 29 de janeiro de 2009, apenas nove dias depois de ter tomado posse pela primeria vez como 44.º Presidente dos EUA, o «Lilly Ledbetter Fair Pay Act» atualiza o «civil rights act» de 1964, reforçando os instrumentos legais das mulheres trabalhadoras, no sentido de não serem discriminadas no seu local de trabalho.

Mas o caminho legislativo de «equal pay for equal work» é longo. Basta lembrar que, apenas dois anos antes dessa assinatura presidencial, as duas câmaras do congresso recusaram emenda semelhante, perante oposição republicana.

Nos últimos anos, perante as dificuldades políticas da Casa Branca de aprovar o essencial da sua legislação junto do congresso, Obama retraiu esta questão nas suas prioridades, tendo o tema sido liderado, do lado democrata, pela senadora Elizabeth Warren.

A senadora Warren é uma das líderes ideológicas do Partido Democrata, por estes dias. 

Figura próxima de Obama (ajudou o Presidente em temas quentes do primeiro mandato, como a regulação de Wall Street), Elizabeth foi crucial para uma certa recuperação política de Obama no último ano do primeiro mandato, ao recuperar para os democratas o lugar que havia sido perdido no Senado, em representação do Massachussets, após a morte de Ted Kennedy.

Ora, uma das prioridades políticas de Elizabeth Warren desde que chegou ao Capitólio é, precisamente, esta ideia de «equal pay for equal work». 

O Presidente também tem nesta tema um dos seus objetivos para o segundo mandato. Para Obama, uma «economia durável», meta que insiste em reforçar para os EUA, «só é possível quando o trabalho duro recompense, independentemente do género do trabalhador».

A realidade laboral americana aponta para que as mulheres ganhem cerca de 77% dos homens, perante trabalhos semelhantes. 

Obama criou uma «Equal Pay Task Force» e apoia o Paycheck Fairness Act, que daria às mulheres ainda mais instrumentos para atingir a tal igualdade laboral.

Só que a proposta legislativa, que tinha em Warren uma das principais promotoras, chumbou no Senado. 

Os senadores republicanos (incluindo algumas mulheres) travaram a ideia, gerando reação indignada de Elizabeth Warren: «Estou chocada com a reprovação de muitas colegas minhas do Partido Republicano no Senado».

«Hoje em dia, em 99.6% dos locais de trabalho nos EUA, os homens ganham mais que as mulheres. Isso não é um acidente. É discriminação», acusa a senadora Warren.

Obama foi ainda mais longe: «É embaraçoso que em 2014 ainda estejamos a discutir isto».

O que leva os republicanos a estar contra esta ideia de igualdade? A congressista Catthy McMorris Rodgers, republicana de Washington, considera que «a melhor forma de ajudar as mulheres trabalhadoras americanas é combater a política económica errada do Presidente Obama, que está a afetar as trabalhadoras, e apoiar as medidas republicanas de incentivo aos pequenos negócios e à criação de empregos».

A luta ideológica anda ao rubro na América. 

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»

sábado, 12 de Abril de 2014

Histórias da Casa Branca: Jeb Bush lança o isco

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 10 DE ABRIL DE 2014: 


Na continuação da avaliação da corrida republicana para 2016, vamos hoje a olhar para Jeb Bush, o ex-governador da Flórida. 

Nascido em Midland, Texas, há 61 anos, é filho e irmão de antigos presidentes. 

O seu pai, George Herbert Walker Bush, foi o 41.º Presidente dos EUA e só cumpriu um mandato, perdendo a reeleição para Bill Clinton, que em 1992 era um jovem governador de um pequeno estado do Sul, o Arkansas. 

O irmão, George «Dabia» Bush, foi o 43.º Presidente dos EUA, deixando, nos dois mandatos, tremenda herança de 11 de Setembro, duas guerras desastrosas (Iraque e Afeganistão) e, para fechar «em beleza», o auge da maior crise financeira e económica desde os anos 30.

Os antecedentes familiares não seriam, por isso, à partida, grande credencial para as aspirações de Jeb Bush. Mas na política americana há um conjunto muito variado de fatores a analisar. 

O «pedigree» político está marcado em Jeb no seu nome e na sua história familiar. Vantagem ou problema? As duas coisas, na verdade. Tudo depende da forma como o candidato encarar a questão. 

E Jeb pode, de facto, apresentar-se como uma das soluções mais viáveis que os republicanos têm para fazer face a Hillary Clinton em 2016: tem nome, um bom percurso político (foi governador popular entre democratas e republicanos num dos estados mais relevantes para as contas presidenciais, a Flórida) e tem-se conseguido afastar da ala mais radical e assustadora que, nos últimos anos, «infetou» o discurso mais tradicional da Direita americana.

Olhando a coisa mais em perspetiva, o interesse mediático, jornalístico e até histórico de um eventual duelo presidencial Clinton (Hillary) «vs» Bush (Jeb) em 2016 seria enorme e provocaria uma das mais apetecíveis corridas presidenciais de que há memória na América.

É possível? É. Embora não seja o mais provável, neste momento, esse cenário de uma repetição Clinton «vs» Bush, 24 anos depois do jovem Bill ter batido o então Presidente George HW, em 1992.

Está tudo em aberto no campo republicano. As fações nos conservadores são tantas que a corrida mostra um leque de seis ou sete candidatos com uma base inicial de apoio idêntica, na ordem dos 10/12 pontos. E Jeb Bush está nessa «shortlist».

O que o faz, então, merecer atenções especiais de quem tenta antecipar o que vai acontecer em 2016? Além do nome e do registo familiar, também as características que apresenta como político e como potencial candidato. 

«Nesta fase da corrida, Jeb é uma espécie de Chris Christie sem o escândalo da ponte de Nova Jérsia», nota Jason Riley na Fox. «Jeb apresenta-se como republicano moderado, capaz de chegar ao outro lado, com hipóteses de alargar a sua base e com capacidade de angariação de bom dinheiro. Pode ter o seu momento». 

Outro relevante comentador da Fox, Charles Lane, vai mais longe: «Jeb Bush tem condições de mostrar o lado mais viável do Partido Republicano. Mas tem que conseguir convencer o seu próprio partido disso».

Ao contrário do irmão George W., que na Casa Branca se deixou influenciar pela ala mais à direita do partido, depois de ter sido governador do Texas capaz de «chegar ao outro lado», Jeb parece querer manter-se como republicano moderado.

Em recente entrevista a Shannon Bream, Jeb Bush quis reforçar essa sua abordagem, falando dos imigrantes ilegais com especial moderação: «Não os vejo como criminosos. Sinto que fizeram algo por compaixão, para tentar melhorar a vida dos seus filhos».

Essa declaração pode ser popular ao centro e à esquerda, mas frisa Charles Krauthammer, comentador conservador, «pode ser fatal para as aspirações de Jeb de agarrar a base do partido». 

Outro problema de Jeb é o facto de estar afastado dos centros de decisão política há oito anos, desde que deixou de ser governador. 

Estará a tempo de regressar em grande?

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

Histórias da Casa Branca: o labirinto republicano

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 7 DE ABRIL DE 2014:


A um ano e sete meses de arrancar oficialmente a época de primárias nos EUA (na prática, ela já está em movimento), a evolução das sondagens mostra duas coisas: do lado democrata, Hillary exibe vantagem politicamente impossível de reverter; no campo republicano, não há «frontrunner» declarado e a corrida está aberta a um leque vasto e variado de pretendentes. 

Nisto de falar de possíveis nomeados presidenciais a tanto tempo de distância, há quase sempre a tentação de se apontar favoritos. 

E seria difícil encontrar um quadro mais discrepante entre os dois campos partidários. Hillary só não será a nomeada democrata se não quiser. Em grande contraste, não dá para indicar quem está, nesta altura, em melhor posição no lado republicano.

Muito decorrerá do caminho que a direita americana percorreu nos últimos anos.

A forma de encarar o «fenómeno Obama» mudou o conservadorismo americano. E deixou a corrida à nomeação presidencial republicana para 2016 num autêntico labirinto.

O eixo da direita política nos EUA afastou-se do centro nos últimos seis anos. Basta dizer que, na corrida de 2007/2008, Mitt Romney ocupava o segmento «à direita» as primárias republicanas que viriam a ser ganhas por John McCain. 

Quatro anos depois, em 2011/2012, Mitt Romney representou a solução mais moderada de um lote de candidatos um bocadinho assustador, que continha o ultraconservador religioso Rick Santorum, o «cowboy» texano Rick Perry, ou a «tea party darling» Michele Bachmann.

A derrota a toda a linha de Romney para Obama, em novembro de 2012, fez levantar várias inquietações nas diferentes correntes republicanas: faria sentido continuar a permitir que uma linha tão radical dominasse o discurso do Partido Republicano? 

A forma como o próprio Romney foi levado a descolar o seu discurso para a direita, de modo a conseguir agarrar a nomeação de 2012, não teria sido contraproducente para as aspirações dos republicanos de evitar a reeleição de Obama?

Passou um ano e meio desde esse momento. E, por estranho que isso parecer, não houve ainda sinais claros de que uma via moderada passe a prevalecer na escolha republicana de 2016. 

Sobram nomes e pretendentes, mas falta ainda uma definição clara do caminho que o Partido Republicano vai pretende seguir, na tentativa de recuperar o controlo da Casa Branca, que em 2008 perdeu para o Partido Democrata.

Poderão os oito anos de Obama ser prolongados por mais quatro ou mesmo oito de Hillary Clinton? 

As sondagens mostram que esse é o cenário mais provável (Hillary bate com relativa facilidade qualquer contendor republicano), mas convém lembrar que estamos ainda muito distantes no calendário da fase que irá decidir verdadeiramente a sucessão de Obama.

E é preciso, sobretudo, recordar que os sucessos eleitorais de Barack Obama em 2008 e 2012 terminaram com uma tendência, que parecia consistente, de vantagem republicana nas eleições presidenciais (no meio século que mediou Kennedy de Obama, só três democratas conseguiram chegar à Casa Branca: Johnson, Carter e Clinton).

O opositor de Hillary Clinton será um dado crucial para percebermos a dinâmica da corrida presidencial de 2016. 

Em traços gerais, parece claro que qualquer escolha mais radical do campo republicano (Sarah Palin, Michelle Bachmann, Rick Perry, Rick Santorum, Ted Cruz, Rand Paul) significará um passeio para Hillary na eleição geral.

Se em 2012 a base republicana soube escolher com a razão e não com o coração (Romney não era o mais mobilizador, mas era de longe quem mais hipóteses tinha de evitar o triunfo de Obama), essa necessidade reforça-se para 2016. 

Espaço para Jeb Bush, Paul Ryan ou mesmo Marco Rubio? Talvez.

Voltaremos a este tema muito em breve. Uma eleição presidencial americana é mesmo a mais louca corrida do Mundo.

sábado, 5 de Abril de 2014

Histórias da Casa Branca: ObamaCare, sucesso sofrido mas real

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 4 DE ABRIL DE 2014:

«Mais de sete milhões de americanos já aderiram ao Affordable Care Act. O debate sobre repelir a lei está terminado. A Reforma da Saúde é uma realidade nos Estados Unidos da América»
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos

A Reforma da Saúde é a maior história política dos anos Obama. 

Se o inquilino da Casa Branca ficará para sempre nos livros de registo dos presidentes da América como o primeiro negro, a verdade é que, do ponto de vista da sua agenda política e ideológica, a aprovação e implementação de um sistema de saúde tendencialmente universal, num país que até ao seu mandato deixava perto de 50 milhões de americanos sem qualquer tipo de cobertura, será a marca mais duradoura.

E também a mais polémica e fraturante, convenhamos. Se há tema que «parte» o eleitorado e a elite política americana ao meio, é o popularmente designado de «ObamaCare».

A questão permanece, quente, na discussão política e mediática norte-americana há quase uma década.

Dominou a agenda da eleição presidencial de 2008 (Obama e Hillary, os dois principais candidatos nas primárias democratas desse ano, tinha em comum a Reforma da Saúde como prioridade, embora com divergências de pormenor nos respetivos planos).

Colocou Obama na berlinda, nos primeiros anos de primeiro mandato presidencial, tamanha era a aversão da direita americana à ideia de aprovar um plano federal de enorme dimensão.

O «ObamaCare», dito assim de forma perjorativa pelos conservadores e pela ala radical Tea Party, deu jeito à direita americana para rotular o atual presidente de «esquerdista», «despesista», «dar excessivo peso ao governo e violar os direitos individuais dos americanos» e mesmo coisas piores no imaginário político americanos, como... «socialista» ou «comunista». 

Em política, o tempo é um fator relevante. Os mandatos têm durações limitadas ¿ e há que estabelecer prioridades.

Numa análise aos cinco anos e meio de Presidência Obama, vemos que o tema que se manteve sempre à tona foi este: nunca o Presidente deixou cair a Reforma da Saúde.

Com grande contradição: as sondagens sempre mostraram uma maioria de 50 e poucos por cento de americanos contra a ideia; mas o historial legislativo conferiu progressiva legitimidade ao plano de saúde do Presidente. 

O «Affordable Health Care Act» foi aprovado no Congresso a 21 de março de 2010 (numa altura em que havia forte maioria democrata nas duas câmaras), confirmado pelo Supremo Tribunal dos EUA em junho de 2012 e relegitimado, no plano político, pela clara reeleição de Obama, em novembro de 2012. 

Já está em prática, mas os primeiros meses aplicação foram desastrosos (muito por culpa da inabilidade executiva e mesmo comunicacional da Administração Obama, que cometeu muitos erros no modelo de aplicação).

A gestão dos danos foi difícil e demorou o seu tempo. Mas na passada terça-feira, a passagem dos 7,1 milhões de americanos a aderir ao plano foi aproveitada pelo Presidente para concluir: «Os benefícios deste plano nas pessoas reais são indiscutíveis. A discussão sobre o tema está terminada. Não há caminho para trás. O Affordable Health Care Act é uma realidade e já ajudou milhões de americanos», apontou Obama, em discurso no Rose Garden, com o seu vice-presidente, Joe Biden, ligeiramente atrás, a concordar.

Obama relembrou a importância, nestes anos de luta legislativa e política pela aprovação, de democratas como Harry Reid (líder da maioria no Senado) ou Nancy Pelosi (líder da agora minoria democrata na House e «speaker» do Câmara dos Representantes na altura da aprovação, em 2010). 

Mesmo no Partido Democrata, o tema está longe de ser consensual. Em 2010, muitos congressistas democratas perderam o lugar à custa de apoiarem o ObamaCare. Não querendo repetir o sacrifício, alguns até pedem ao Presidente para que não faça campanha nos seus distritos, com medo de que a impopularidade desse programa volte a «contagiar» negativamente os resultados dos democratas.

segunda-feira, 31 de Março de 2014

Histórias da Casa Branca: a UE, Putin e o «guarda-chuva» americano

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 31 DE MARÇO DE 2014:


«Putin revela mágoa profunda pelo fim da URSS»

«A Rússia tem que retirar as tropas da zonas de fronteira com a Ucrânia, para aliviar tensões. Aumentar o número de tropas na fronteira da Ucrânia não é o que a Rússia deve fazer»

«Há um forte sentimento de nacionalismo na Rússia e que, de certa maneira, há a ideia de que o ocidente ganhou vantagem sobre a Rússia no passado. O que tenho dito é que têm interpretado mal as intenções do ocidente. E, garantidamente, não têm compreendido as intenções da diplomacia americana».
BARACK OBAMA, Presidente dos EUA, entrevista à CBS

O que se passou na Crimeia foi um sério teste à capacidade do exército russo. Eles demonstraram as novas capacidades das nossas forças armadas em termos de qualidade e do elevado moral dos militares
VLADIMIR PUTIN, Presidente da Rússia, citado pela BBC

A visita de Obama à Europa e o aparente recuo de Putin na intenção de «alargamento do território» após a ação militar na Crimeia ajudam-nos a obter alguma lógica racional neste «traumatismo ucraniano».

Se, num primeiro momento, Putin ganhou pelo efeito surpresa, os últimos dias terão sido claros a mostrar que a Rússia corre o risco de ficar isolada na sua «jogada de antecipação», que levou à anexação da Crimeia (ilegal para a comunidade internacional, legitimada ao olhos de Moscovo pelo referendo).

Putin foi magistral no lance militar, percebendo que, após Maidan, o sentimento dominante na Crimeia seria de apelar à proteção de Moscovo, perante a fragilidade da nova ordem político em Kiev.

Mas o presidente russo está a perder a segunda parte desta eliminatória. Putin esperaria uma reação da União Europeia mais titubeante, perante a enorme ligação comercial entre Berlim e Moscovo e até com as influências financeiras entre as praças de Londres e Frankfurt com os magnatas russos. 

A juntar a isto, o líder russo terá antecipado um certo esfriamento das relações transatlânticas, em função das revelações constrangedoras do «caso Snowden», com as escutas da NSA a conversas privadas de altos dirigentes políticos e diplomáticos europeus, entre os quais a chanceler Merkel.

Tudo isso terá o seu peso. Mas o que se assistiu,nos últimos dias, foi a um claro reforço da aliança euro-americana, sublimado na cimeira EUA/UE, realizada na semana passada em Bruxelas. 

Obama, que no passado recente mostrara pouco entusiasmo perante o «complexo burocrático» das instituições europeias, deu claríssimo sinal de que a aliança entre os Estados Unidos e a União Europeia continua a ser a «pedra angular» das relações externas americanas. 

Mesmo uma Europa ainda a tentar salvar-se da crise do euro e das dívidas soberanas de vários dos seus países se mostra, em momentos definidores como é este da questão ucraniana, o aliado mais sólido e consistente dos EUA. 

Acresce que os últimos meses têm revelado um claro arrefecimento das economias dos BRIC (Brasil, Rússia, Índica, China e a agora também África do Sul e mesmo a Turquia).

Até ao ano passado, a narrativa dominante na política internacional era de que esses países iriam apresentar taxas de crescimento espetaculares, promovendo uma progressiva perda de influência da economia americana.

Ora, não é isso que está a suceder em 2014: a América, em clara recuperação económica, já tem taxas de crescimento superiores a muitos desses países.

Em contraponto, a Rússia tem debilidades na sua estrutura económica que Putin quererá, eventualmente, disfarçar com esta demonstração de força do seu exército, na questão ucraniana. 

Com este quadro, a Europa, mesmo ressentida com as ondas de choque do caso Snowden, nem sequer hesita: sente-se muito mais «americana» do que «russa».

Os momentos de tensão têm esta vantagem: ajudam a escolher caminhos. 

sábado, 29 de Março de 2014

Histórias da Casa Branca: Putin reaproximou Obama da Europa

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 28 DE MARÇO DE 2014:


«A Rússia é uma potência regional e não constitui ameaça real aos EUA. A forma como os russos continuam a perturbar os seus vizinhos mostra a sua fraqueza e não a sua força».

«Os nossos aliados da NATO são os nossos parceiros mais próximos no cenário internacional. A Europa é a pedra angular das relações entre os Estados Unidos e o Mundo».
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos

«Muitas pessoas na Europa fizeram leitura exagerada da relação dos EUA com o Pacífico»

«O Presidente Obama disse que queria reforçar os laços com a Ásia, mas isso não significa que quisesse enfraquecer os laços com a Europa. Somos um grande país, podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo»
PETER CHASE, vice-presidente da Câmara do Comércio dos EUA para a Europa, entrevista ao Público

A crise da Crimeia pôs a nu divergência fundamental entre os europeus e americanos, por um lado, e russos, por outro, na forma de encarar as relações internacionais. 

Quem vive do lado ocidental dá prioridade à estabilidade das fronteiras, ao respeito pelos tratados e à cooperação entre os Estados; a Rússia coloca em primeiro lugar a razão da força, em nome dos seus interesses nacionais. 

Nos últimos dias, tem sido muita recordado o «precedente» do Kosovo para se apontar uma vulnerabilidade nesta linha de raciocínio.

Como em tudo na política internacional, o tema não é linear. Convém recordar que, no Kosovo, não houve uma anexação, nem sequer uma violação da integridade territorial por tropas de outro país. Houve, de facto, bombardeamentos da NATO sobre o que é hoje a Sérvia, mas a proclamação da independência do Kosovo decorre num contexto completamente diferente desta «anexação unilataral» por parte da Rússia, ao arrepio do direito internacional e supostamente legitimada num referendo que nem sequer colheu caução por parte da ONU.

A recente cimeira EUA/UE, que levou Barack Obama a Bruxelas pela primeira vez desde que é Presidente, reforçou esta profunda divisão de posições.

Um mérito Vladimir Putin estará a ter, com esta «crise ucraniana»: reaproximar Washington de Bruxelas.

Obama, que por 2008 era endeusado pelos líderes europeus, passou em poucos anos a «desilusão» na leitura deste lado do Atlântico. Porque prometeu no primeiro mandato ser um «Presidente do Pacífico», essencialmente preocupado em travar a ascensão da China. E, depois, pelas revelações constrangeradoras do «caso Snowden», com a perceção de a NSA escutaria conversas privadas de líderes europeus. 

A Administração Obama dedicou os últimos meses a tentar sarar as feridas. Hoje mesmo, o Presidente terá recebido uma proposta de reforma da NSA, no sentido de diminuir o alcance das escutas, para que a América não volte a correr o risco de ser acusada de espiar os seus amigos e aliados. Obama defende uma NSA mais limitada, que só possa atuar com mandato judicial.

E será que as ondas de choque da «espionagem» da NSA poderá afetar a concretização da anunciada plataforma transatlântica de comércio e investimento euro-americana?

«Posso garantir que o governo americano não dá informações às nossas companhias. Mas os europeus estão a pensar em novas regras para a proteção de dados. Ora, isso não é só um problema com os EUA», recorda Peter Chase, vice-presidente da Câmara do Comércio dos EUA para a Europa.

Na visita à Europa, Obama insistiu na ilegalidade do referendo na Crimeia, recordou que a aliança euro-americana é a «pedra angular» do posicionamento dos EUA e no Mundo e mostrou que o caminho para travar a ameaça russa é insistir na via das sanções diplomáticas, militares e económicas. 

A Rússia já terá perdido, nas últimas semanas, em fuga de capitais decorrentes das sanções pós-Crimeia, o equivalente a 3% do PIB (tanto como em todo o ano de 2013). 

sexta-feira, 28 de Março de 2014

Histórias da Casa Branca: regresso forçado ao palco europeu

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 24 DE MARÇO DE 2014:


Como reagir à anexação da Crimeia pela Rússia? 

Tomar como facto consumado de «realpolitik» musculada de Moscovo? Reforçar sanções da «comunidade internacional» contra Putin, chegando ao ponto de expulsar a Rússia do G8 (só «G7», agora, outra vez)?

Barack Obama tem sido muito atacado pela ala dura dos republicanos pela «estratégia de contenção». Obama quer ser recordado como um Presidente que retirou tropas em dois cenários de guerra e fará tudo para evitar dar ordem de novos envios de americanos para teatros de guerra «overseas». 

O discurso dúbio de Putin (primeiro garantiu que iria «respeitar a integridade territorial da Ucrânia», depois mostrou que considera a Crimeia território administrável pela Rússia) dá fortes razões para inquietação noutras regiões da Ucrânia.

Ao recordar que «Kiev é a mãe de todas as cidades russas», Putin mostrou que quer mesmo manter essa ambiguidade, no mínimo para sinalizar a fragilidade do novo poder saído de Maidan. 

Como lembrou, com muita piada, o embaixador José Cutileiro, em comentário no programa no «Visão Global» da Antena 1, a propósito dos resultados... «norte-coreanos» do referendo na Crimeia, «Estaline dizia que, nisto das eleições a votação não é importante. O que é importante é a contagem...» 

E o facto é que os quase 97% (!) de «sins» à anexação da Crimeia à Rússia, ainda que indiquem uma certa visão «estalinista» de dar prioridade «à contagem e não à votação», também não deixam grandes dúvidas quanto a uma maioria clara de habitantes da Crimeia a quererem juntar-se a Moscovo e não a Kiev. 

O que fica? Um grande problema para a Ucrânia, antes do mais, com um crescente fantasma russo a perturbar as suas fronteiras. Mas também um problema para a Europa e para os Estados Unidos.

O Presidente Obama, que passará os próximos em solo europeu, teve que alterar a agenda da visita já programa desde o início do ano para dar ainda mais prioridade à questão da Crimeia/Ucrânia/Rússia.

Merkel, Cameron e Hollande têm falado grosso contra Putin: prometem sanções e, pelo menos nas palavras, dão mostras de não quereram sobrepor os (muitos) interesses económicos de Berlim, Londres e Paris com Moscovo.

Mas toda a Europa sabe que, sem um poder militar real, continua a ser preciso o aval americano para que o «bloco NATO» dê forte sinal de proteção à Ucrânia perante a ameaça russa. 

O próximo passo é estancar a ferida da «cisão». A Crimeia terá mesmo que ser uma exceção, caso contrário há muitos esqueletos que podem sair do armário. 

Houve quem se tenha lembrado, nos últimos dias, da coincidência temporal, um pouco assustadora: também foi no ano 14 do século passado que o assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajavo tornou-se rastilho que gerou a I Guerra Mundial.

Exatamente um século depois, queremos todos acreditar que há, agora, maior racionalidade política e diplomática. Os interesses económicos interligados (a Rússia precisa UE, a UE precisa da Rússia) também pode ajudar.

Esta é mesmo a guerra que ninguém quer. Mas nos últimos dias tem-se brincado com o fogo. Quem conhece bem os russos sabe que eles não iriam recuar, depois de terem avançado para a Crimeia. 

Putin sabe que terá muito mais a perder do que a ganhar se subir a parada das movimentações militares. Mesmo assim, Washington dá mostras de apreensão, com o agravar das sanções económicas e diplomáticas. 

O interesse de Obama em voltar-se outra vez para a Europa Central e do Leste era pouco maior que zero. 

A recente visita de Michelle, Sacha e Malia Obama a Pequim (com direito a receção pelo presidente Xi Jinping) mostrou que a América continua a ter supremacia em relação à Rússia em qualquer cenário: até com a China e talvez até com o Irão, perante o novo clima de cooperação sinalizada por Rohani. 

segunda-feira, 17 de Março de 2014

Histórias da Casa Branca: uma vida inteira a defender a «contenção»

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 17 DE MARÇO DE 2014:


«As velhas soluções de mais armas e mais intervenções não serão aceites numa Europa já habituada à paz» 
Barack Obama, artigo publicado em 1983, então estudante na Universidade de Columbia

«Obama tem que equacionar a hipótese nuclear contra Putin. A única forma de travar um mau tipo com armas nucleares é um bom tipo com armas nucleares»
Sarah Palin, ex-governadora do Alasca e «tea party darling»


Barack Obama tem tentado ser o Presidente do realismo, da redução de efetivos e da desnuclearização.

Em Praga, há quase cinco anos, corria o mês de abril de 2009, ainda em ambiente de início de primeiro mandato, anunciou o caminho para «um Mundo sem armas nucleares».

Considerado como «irrealista», esse discurso apontaria, no entanto, o arranque para a assinatura de um novo Tratado Start, com a Rússia (então presidida por Medveded, mas controlada politicamente por Putin), precisamente um ano depois (abril de 2010), e também na capital checa.

Esse acordo, posteriormente ratificado no Senado dos EUA com 81 votos a favor e só 18 contra, previa uma forte redução do arsenal nuclear dos dois maiores poderes (americano e russo).

A visão de Obama sobre a «contenção» da grande ameaça nuclear estava clara. Começou nessa primeira fase da sua presidência com o histórico acordo com a Rússia e prosseguiu, por exemplo, na gestão do problema sírio, ao colocar como «red line», que legitimaria uma eventual intervenção militar contra o regime de Assad, a utilização de armas químicas contra população civil. 

A efetivação da redução nuclear, não estando em perigo, passou para segundo plano no último ano, com as divergências crescentes entre Obama e Putin em grandes temas como a Síria ou, agora, a Ucrânia.

Mas manteve-se como pilar fundamental da visão Obama para o que deve ser a «contenção» da grande ameaça iraniana, por exemplo. Os passos dados entre o Presidente dos EUA e o novo líder surgido em Teerão (Rohani) voltaram a mostrar que, em Washington, continua a haver forte vontade política de colocar a «desnuclearização» no topo das prioridades de política externa. 

A questão pode parecer relativamente óbvia para os nossos parâmetros de leitura. Mas mesmo na política interna americana, está longe de ser um consenso. Basta olhar para o que disse Sarah Palin, antiga governadora do Alasca e ícone da direita radical americana, no recente CPAC. A ex-candidata a vice-presidente sentenciou: «A única forma de travar um mau tipo com armas nucleares é um bom tipo com armas nucleares». 

«Contenção» será o termo adequado para definir a estratégia do atual presidente americano, para reduzir a necessidade de acionar o poder bélico dos EUA. James Traub, em excelente artigo na «Foreign Policy», resume, em alusão à crise da Crimeia: «Obama vai permitir que Putin ganhe a batalha, assegurando que o Ocidente vencerá a guerra». 

Uma crítica que se faz a um líder político de um grande país é a de que mudou as suas posições fundamentais depois de chegar ao poder. 

Não deixa, por isso, de ser interessante olhar para o que Barack Obama, então com 21 anos, escreveu na revista da Universidade de Columbia, em artigo intitulado «Breaking de The War Mentality», a 10 de março de 1983, há 31 anos e uma semana: «Em 1933, o «establishment» alemão pensava que podia usar Hitler para restaurar o módico de ordem perante uma Weimar confusa e anárquica. Na verdade, Hitler reforçou o «establishment» alemão, mas não exatamente no modo como banqueiros e homens de negócio gostariam; e agora, cinquenta anos depois, é claro quem estava a usar quem (...) As velhas soluções de mais armas e mais intervenções não serão aceites numa Europa já habituada à paz». 

O artigo pode ser lido em http://documents.nytimes.com/obama-s-1983-college-magazine-article#p=1

sexta-feira, 14 de Março de 2014

Histórias da Casa Branca: quase só trunfos para Hillary Clinton

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 10 DE MARÇO DE 2014:


Na histórica corrida à nomeação presidencial democrata de 2008, Hillary Clinton partiu com uma vantagem de 20 a 30 pontos sobre Barack Obama e John Edwards.

Parecia uma diferença difícil de reverter, mas o evoluir das primárias foi mostrando uma recuperação espetacular de Obama. 

Numa fase em que o mais provável passou já a ser nomeação do então senador pelo Illinois, um conselheiro próximo de Hillary desabafava: «O problema para nós é que esta corrida tinha tudo para ser ganha por uma senadora democrata que nasceu no Illinois, mas entretanto apareceu um senador democrata que nasceu numa manjedoura...»

A imagem foi aplicada em altura de plena «Obamania», meses antes da primeira eleição do primeiro presidente negro da América. 

Seis anos depois, os primeiros sinais para a corrida de 2016 são ainda mais favoráveis a Hillary. Com um avanço que oscila entre os 60 e os 70 pontos, a antiga Primeira Dama dos EUA já nem precisa de fazer frente a «toques de magia» que eventuais rivais internos pudessem derramar para as hostes democratas. 

Desta vez, Hillary tem quase tudo a seu favor: uma vantagem nunca vista numa corrida presidencial americana (passeio para a nomeação e avanço sólido contra todos os potenciais opositores republicanos); uma base financeira alargadíssima (em parte iniciada na campanha Hillary-2008 e outra herdada das duas campanhas presidenciais de Obama); uma economia americana a recuperar, com sinais de que, por 2016, possa ter números já superiores ao que tinha antes da crise de 2008 (o que poderá beneficiar a futura nomeada democrata). 

Hillary só tem vantagens? Não. Tem dois ou três problemas que terá que contornar nos próximos dois anos.

Primeiro, a idade. Em novembro de 2016, Hillary Clinton terá acabado de completar 69 anos. É certo que a energia que exalou no mandato como secretária de Estado (mais de cem viagens pelo mundo) lhe dão força para minimizar o «tema idade». Mas os problemas de saúde que acusou no final do mandato, por setembro e outubro de 2012, serão certamente um ponto a acompanhar nos próximos tempos.

Uma presidência Hillary, sem dúvida histórica por constituir a primeira mulher a chegar à Casa Branca, confere, ao mesmo tempo, um certo «olhar para trás», não muito comum na política americana. 

Bill foi eleito pela primeira vez para a Casa Branca em 1992: 24 anos antes da possível eleição de Hillary. Se ela for mesmo a sucessora de Barack, passar-se-á de um Presidente eleito com 47 anos (a idade de Obama em 2008), para uma Presidente eventualmente escolhida com 69 anos (a idade de Hillary em 2016).

A questão é que, na política, os ciclos têm uma certa lógica. Um dos pontos fracos apontados a Obama no início foi, precisamente, a sua inexperiência em cargos executivos. O mesmo nunca se poderá dizer de Hillary, que habita a alta política americana há 40 anos. 

Hillary Diane Rodham Clinton nasceu em Chicago, a 26 de outubro de 1947. Formada em Ciências Políticas, em Wellesley, e em Direito, em Yale. Filha de Dorothy e Hugh Rodham, casal republicano e conservador, chegou, na adolescência a fazer campanha por Barry Goldwater, candidato que perdeu para o democrata Lyndon Johnson, em 1964.

Mas nos anos de faculdade, já era uma liberal, com agenda progressista. Aluna brilhante, foi escolhida para oradora doseu curso em Wellesley, e chegou a Yale, no início da década de 70, onde conheceu Bill Clinton.

Ao tornar-se a jovem esposa do mais jovem governador de estado da história americana (Bill Clinton governou o Arkansas com 28 anos), Hillary começava um percurso político de quatro décadas, que inclui os cargos de Primeira Dama dos EUA (1993-2001), senadora democrata por Nova Iorque (2001-2009), candidata presidencial nas primárias democratas (2008) e secretária de Estado norte-americana (2009-2013).

Histórias da Casa Branca: a Crimeia a mexer no tabuleiro mundial

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 13 DE MARÇO DE 2014:


«Se a Rússia continuar o que está a fazer durante as últimas semanas, a catástrofe pode afetar não apenas a Ucrânia. Isto não vai alterar apenas as relações entre a UE e a Rússia. Afeta a Rússia economicamente e politicamente» 
Angela Merkel, chanceler da Alemanha

A crise da Crimeia está naquele ponto em que ninguém sabe dizer se a próxima etapa será melhor ou pior.

Como notou José Milhazes no «Blogue da Rússia», «ninguém diz querer uma solução militar para a situação em trono da Crimeia, mas o facto é que todos se estão a preparar para a guerra.»

Putin, autor da jogada militar e política de alto risco de mandar 16 mil tropas para a Crimeia, território ucraniano, não tem qualquer interesse em lançar a Rússia num conflito de larga escala.

A questão não é essa. 

O que está em jogo na crise da Crimeia é uma relação de forças entre a Rússia, a NATO (leia-se, EUA) e outros «players» escondidos, como a China e até o Irão. 

Ao olhar ocidental, seguindo os critérios dos acordos internacionais e das fronteiras desenhadas nos mapas, a Rússia de Putin criou um precedente: colocou o princípio da integridade territorial (a Crimeia faz parte da Ucrânia) abaixo dos valores estratégicos e até históricos e culturais. 

A Revolução da Praça de Maidan levou Putin a tomar uma decisão radical. 

Moscovo está a encostar o frágil poder de Kiev a uma escolha complicada: tão pouco tempo depois da saída de Ianukovich (que reclama estatuto de presidente mas teve que fugir para a Rússia), o novo poder em Kiev agarra-se à ajuda americana para estancar ameaça de extremismos.

Esta era a crise que Washington, Berlim e Bruxelas não queriam. 

Na Casa Branca, Obama passou os últimos cinco anos a mudar as peças do poder militar americano da Europa para a Ásia. 

No início do seu primeiro mandato, o Presidente dos EUA chegou a acreditar que teria em Putin, se não um forte aliado, pelo menos um parceiro estratégico no interesse comum de reduzir a ameaça nuclear (Tratado Start assinado em Praga, em abril 2010, entre Obama e o então líder russo Medvedev).

O fantasma Leste/Oeste parecia exorcizado e o problema da segurança europeia deixava de estar nas prioridades de Washington.

Quatro anos depois, a realidade é completamente diferente. O tal «presidente do Pacífico» que Obama parecia ser no primeiro mandato, essencialmente preocupado com a ascensão da China, terá que voltar a assestar baterias para a Europa. 

A viagem do Presidente Obama à Europa, no final do mês, ditará os contornos da resposta americana a esta crise inesperada. 

O confronto de poder mais visível desta crise é sem dúvida entre Obama e Putin, os EUA e a Rússia, o Ocidente e o Leste.

Pelo meio, está a nossa «Europa, querida Europa, liderada pela Alemanha de Merkel, a ter que ter um discurso dual, afetivamente mais ligada aos EUA e contratualmente ligada à NATO, mas ao mesmo tempo com fortíssimo envolvimento económico com a Rússia. 

Por detrás deste cenário mais evidente, estão dois «atores sombra»: a China e o Irão. 

O suposto apoio de Pequim a Moscovo, no ato de Putin de dominar a Crimeia, pode ter um efeito de exemplo. A China ameaça fazer movimentos paparecidos em zonas estratégicas da Ásia-Pacífico. O precedente da Crimeia pode ser útil para os chineses. 

O Irão tem um interesse diferente. O clima de aproximação entre Obama e Rohani apanhou Putin de surpresa. A perspetiva de acordos comerciais, sobretudo na área da energia, entre Washington e Teerão, levou a Rússia a preservar a sua área de influência na Ucrânia.

Robert Gates, chefe do Pentágono no final dos anos Bush e na primeira metade do primeiro mandato de Obama, cauciona a atuação do Presidente, apesar de tantas críticas de «fraqueza perante Putin», lançadas pela Direita americana: «Obama tem feito o que deve o que deve ser feito. Putin também mandou tropas para a Geórgia e na altura ninguém disse que o Presidente Bush estava a ser fraco».

domingo, 9 de Março de 2014

Histórias da Casa Branca: ambiguidade russa, contenção americana

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 7 DE MARÇO DE 2014:


«Uma proposta de referendo sobre o futuro da Crimeia violaria a Constituição ucraniana e a legislação internacional»

BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos


«O uso da força seria uma situação extrema, mas reservamo-nos ao direito de utilizar todos os meios para defender os cidadãos ucranianos e russos étnicos» 

VLADIMIR PUTIN, Presidente da Rússia 


Da Crimeia surgem sinais de intenção de aproximação a Moscovo e afastamento de Kiev. Há um referendo marcado para dia 16, com a população local a ter que escolher entre a opção russa ou uma autonomia local.

A História, a Geografia e as raízes culturais colocam a Crimeia do lado russo. Mas uma «doação», em 1954, feita à «república ucraniana» (a segunda maior da ex-URSS) por Krutchev (de origem ucraniana) agravou a confusão política e militar desta península de importância estratégica para Moscovo.

Em 1992, Kiev concedeu estatuto de autonomia à Crimeia em relação à Ucrânia. A forma abrupta e não legitimada como Putin mandou (não assumidamente) 16 mil unidades agravou a tensão e só se pode explicar no contexto da queda de Ianukovich em Kiev e da nova liderança ucraniana, pró-ocidental.

Ao fim de uma semana de crise, a estratégia de Obama para a ameaça russa na Crimeia é clara: evitar a todo o custo uma escalada do conflito; afastar opção de intervenção militar americana; arrefecer ímpetos bélicos do «Urso de Moscovo», com sanções económicas e diplomáticas e com o «raspanete» de direito internacional: «A entrada de militares russos em território ucraniano é uma clara violação da soberania e integridade territorial da Ucrânia e uma infracção à lei internacional», avisou o Presidente dos EUA. 

Obama sabe que Putin tem mais a perder do que a ganhar em levar a ameaça às últimas consequências. Pôde falar grosso no plano das sanções nos últimos dias (o Presidente dos EUA ordenou ontem o congelamento dos bens e a proibição de viajar para território americano de todos os responsáveis pela entrada de militares russos na Crimeia), mas manteve a janela do diálogo com Moscovo (na última semana, Obama e Putin falaram, pelo menos, duas vezes ao telefone). 

«Reconhecemos os laços históricos e culturais sólidos entre a Rússia e a Ucrânia e também a necessidade de proteger os direitos russófonos e das minorias» no país, comentou fonte oficial da administração americana, citada pela AFP.

A visão da Casa Branca sobre este problema passa, assim, por um progressivo recuo, militar e diplomático, da Rússia de Putin. 

Mesmo com o avanço das tropas de Moscovo na Crimeia, Washington está a apontar caminhos de saída. E Obama não se importa de repetir várias vezes a Putin: «As questões a resolver na Crimeia devem ser diretamente dirigidas ao governo ucraniano». 

O apoio americano à (frágil) solução governativa em Kiev, saída da Praça de Maidan, é claro e está a ser decisivo para que, de Moscovo, não surjam tentações ainda mais agressivas. 

No plano da política interna americana, esta crise na Crimeia não tem tido uma reação clássica.

Geralmente, quando os EUA entram num cenário de guerra ou eventual ameaça à segurança interna dos Estados Unidos, as divergências internas para segundo plano. Não por acaso, os picos de popularidade dos últimos dois Presidentes (Bush e Obama) foram, respetivamente, nos dias seguintes ao 11 de Setembro de 2001 e após a operação de eliminação de Bin Laden. 

Mas, desta vez, a estratégia de «contenção e arrefecimento» da Administração Obama junto de Moscovo não está a cair bem na Direita americana mais acirrada.

Ted Cruz, campeão dessa fação extremista, atirou: «Lá de Moscovo, Putin deve estar a rir-se às gargalhadas da forma como Obama está a lidar com esta questão». Uma visão, no mínimo, bizarra de ver a questão. E que mostra bem o estado de uma parte da Direita americana. 

As boas lideranças políticas continuam a ser a chave para que crises como a da Crimeia não degenerem em desgraças.