quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Histórias da Casa Branca: Obama, o Estado Islâmico e a avaliação de culpas

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 1 DE OUTUBRO DE 2014:


«Os Estados Unidos subestimaram o crescimento do Estado Islâmico na Síria e no Iraque» 
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos 


Como é que foi possível que o Estado Islâmico tenha galopado, em poucas semanas, de forma tão ameaçadora em zonas cruciais do Iraque e na Síria? 

Sendo zonas com que os Estados Unidos, nos últimos anos, tanto se familiarizaram (seja a nível militar ou no plano político), o que os levou a deixarem campo aberto a uma organização tão perigosa e agressiva? 

Obama, em entrevista ao «60 Minutes», elaborou sobre esses temas e deixou duas ideias fortes, ambas com um certo lado confessional: os Estados Unidos subestimaram a ameaça do EI na Síria e no Iraque; por outro lado, contavam com maior capacidade de resistência das forças iraquianas no terreno. 

Ou seja, o Presidente explica o descontrolo da situação, que levou à necessidade do início dos bombardeamentos aéreos no Iraque (a 7 de agosto) e ao anunciar de um plano de grande escala de «combate e destruição do Estado Islâmico», com alargamento das ações aéreas à Síria (onde o EI tem o quartel-general, na cidade de Raqqa), com os EUA a liderarem «coligação internacional», composta já por 50 países (e que já contou com raides aéreos também da França e, nos últimos dias, do Reino Unido). 

Em entrevista a Steve Kroft, Obama caucionou a opinião do diretor da National Intelligente, James Clapper, que tinha apontado esses dois pecados por parte dos EUA: a sub-avaliação da ameaça extremista e uma expetativa de maior eficácia das forças iraquianas no terreno. «Isso é verdade. Absolutamente verdade», admitiu o Presidente. 

Obama traçou assim o resumo do contexto na região, para explicar o avanço do EI: «Essencialmente o que que se passou com o Estado Islâmico foi que havia a Al Qaeda no Iraque, que era um grupo perigoso, mas os nossos Marines estavam para os defrontar, com a ajuda das tribos sunitas. Eles recuaram, perderam terreno, ficaram na sombra, mas nos últimos anos, durante o caos da guerra civil na Síria, foi essencialmente que passou a haver enormes zonas do país que ficaram sem governo, sem controlo. O Estado Islâmico foi capaz de reconstituir essas zonas, tirando vantagem do caos». 

Enquanto isso, a avaliação de culpas sobre o tempo que Washington demorou a identificar o grau de ameaça prossegue na arena política e comunicacional nos Estados Unidos. 

John Karl, da ABC News, confrontou o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest: «Foram os serviços de inteligência a sub-avaliar o EI, ou foi o Presidente que caiu nesse erro?». Earnest enquadrou: «Diria que toda a gente o fez. Toda a gente ficou surpreendida ao ver o rápido avanço deles, tanto na Síria como na fronteira com o Iraque e como conseguiram controlar zonas fundamentais do Iraque. Foi surpreendente. E foi algo que o Presidente referiu várias vezes e de que membros dos serviços de informação tinham conhecimento». 

Perante a resposta circular, John Karl voltou à carga: «Como pode Obama dizer que subestimar o Estado Islâmico foi um erro de avaliação dos serviços de inteligência quando foi avisado para o perigo?» 

A questão é que a Casa Branca tem mantido a ideia de que o erro foi mais generalizado, não se limitou à visão do Presidente. «Quem mandava nos serviços de inteligência disse que o que não fizemos foi prever a vontade de lugar, esse é sempre o maior problema¿», apontou Josh Earnest. 

Mas, mais à frente, o porta-voz da Administração Obama garantia: «O Presidente tem completa confiança nos serviços de inteligência para lidar com estas muito dinâmica mas significativa ameaças ao nosso largo interesse nacional. Ele tem completa confiança na capacidade da nossa comunidade de informações para recolher os dados essenciais que nos ajudem a combater e diminuir esta ameaça». 

sábado, 27 de Setembro de 2014

Histórias da Casa Branca: a transformação de Obama em «presidente de guerra»

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 26 DE SETEMBRO DE 2014:


«Não acho que ele tenha mudado de opinião sobre a guerra. Acho que tem sido bastante consistente. Estava perto quando, em 2002, Obama fez o agora famoso discurso (não foi assim tão famoso na altura) opondo-se à intervenção americana no Iraque. E ele disse, na altura, que temia que viessem ao de cima as forças extremistas e a violência sectária e que se tornasse um foco de extremismo. E foi exatamente isso que aconteceu. E ainda estamos a lidar com os estilhaços desse erro. Ao mesmo tempo, ele apoiou a noção de que temos que ir atrás dos terroristas que atacaram os EUA no 11 de Setembro e sentiu que o Iraque iria ser uma distração a esse foco» 

DAVID AXELROD, principal conselheiro de Barack Obama há uma década, entrevista a Jay Reed na MSNBC 

Obama alarga o seu apoio junto da opinião pública e até nos seus aliados. A «destruição» do Estado Islâmico passou a ser a prioridade do atual momento da administração norte-americana. 

Herói anti-guerra na eleição de 2008 (já não tanto na reeleição de 2012), Prémio Nobel da Paz em 2009, será que o 44.º Presidente dos Estados Unidos teve que fazer mudança de 360 grau na sua visão sobre a guerra? 

Talvez nem tanto. 

Chris Matthews, analista na MSNBC, comentou no «Hardball»: «Assumir-se como um Presidente de Guerra é uma transformação notável para um Prémio Nobel da Paz. Faz lembrar, de certo modo, a transformação bem famosa de Franklin Roosevelt, que nos anos 30 liderou em tempos de paz e nos anos 40 liderou a resposta na II Grande Guerra». 

Matthews nota ainda: «Roosevelt assumiu essa mudança dizendo à imprensa e ao público que passou de Dr. New Deal nos anos 30 para Dr. Win The War, nos anos 40. E o que ele teve que mudar para fazer isso! A grande questão é: conseguirá Obama assumir de tal modo essa transformação? E será que o país o acompanha nessa necessidade?» 

As sondagens parecem mostrar que sim. Sete em cada vez americanos exigia ao Presidente uma resposta mais dura e efetiva à ameaça do Estado Islâmico ¿ e isso terá sido decisivo para que Obama se decidisse por este plano ambicioso, que já ditou sérios recuos nas posição do EI no Iraque e na Síria, sobretudo com a destruição, por ataques aéreos, de refinarias e poços de petróleo, que constituíam forte financiamento aos terroristas sunitas. 

Bill Clinton, último democrata a ocupar a Casa Branca antes de Barack Obama, analisa, em entrevista à ABC News: «O que se passou com as decapitações é horrível. Simplesmente horrível. O povo americano tende a julgar o presidente sobre se estamos mais fortes, mais protegidos e mais seguros. Por isso, acho que os americanos apoiam o que está a ser feito». 

Visão bem mais crítica tem o senador Ted Cruz, do Texas. Um dos líderes do Tea Party, campeão do radicalismo de direita no Capitólio, Cruz acusa Obama de ter «demorado demais na resposta e de ter insistido, sem sentido, na noção de «nation building» no Iraque». 

Em entrevista a Dan Balz, no Washington Post, Ted Cruz apontou: «Não creio que seja missão da América assegurar a construição de outra nação. Esta administração tem repetido erros na resposta sobre conseguir distinguir os tipos bons dos tipos maus. Na Síria isso já tinha acontecido há um ano». 

Certo é que, no terreno, a coligação liderada pelos EUA conseguiu importantes avanços nos últimos dias. De tal modo que os jihadistas do Estado Islâmico têm sido forçados a oscilar para a fronteira turca, o que provoca novos problemas, com a fuga de milhares de sírios turcos. 

Paralelamente, os receios de atentados de células do EI em grandes cidades europeias (assumido pelo primeiro-ministro iraquiano), reforçam a necessidade de se apostar na inteligência e nos serviços secretos. A escalada securitária em Washington, Nova Iorque, Londres e Paris pode estar a caminho. 

quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

Histórias da Casa Branca: Estado Islâmico, o monstro precisa de amigos

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 24 DE SETEMBRO DE 2014:


«Os que cometem o erro de ferir os americanos vão aprender que esses atos não serão esquecidos, que a justiça será feita» 

«Não seremos intimidados» 

«Vamos conseguir neutralizar o Estado Islâmico. Vamos consegui-lo. Vai demorar algum tempo e vai exigir algum esforço» 

«Vamos conseguir neutralizar o Estado Islâmico. Vamos consegui-lo. Vai demorar algum tempo e vai exigir algum esforço» 

«Não agimos sozinhos [na guerra ao EI]. Em vez disso, vamos apoiar os iraquianos e os sírios a resgatar as suas comunidades. (...) Já temos 40 nações a quererem juntar-se à coligação. Hoje, peço ao mundo para se juntar a este esforço. Os que se juntaram ao EI devem abandonar o campo de batalha o quanto antes. Os que continuarem a lutar por esta causa odiosa vão perceber que estão sozinhos. Não cederemos a ameaças, vamos demonstrar que o futuro pertence aos que aos que constroem ¿ não aos que destroem» 

BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos 

A ofensiva internacional, que já atinge quatro dezenas de países, aumenta de escala e já entrou em reduto da Síria. Aos numerosos bombardeamentos já feitos em zonas iraquianas, juntaram-se os ataques aéreos sobre solo sírio. 

O esforço americano, como o Presidente Obama tinha exortado, foi concertado com a presença de aviões da Jordânia, Qatar e Arábia Saudita, além de apoio militar do Bahrein e dos Emirados Árabes Unidos. 

A operação conjunta confirma, assim, a ideia de que «os EUA não estão sozinhos neste combate aos jihadistas» e contam, cada vez mais, com os aliados árabes na região, talvez as vítimas mais imediatas das ameças dos radicais sunitas. 

Raqqa, cidade síria que a cúpula do Estado Islâmico autoproclamou «capital do Califado», foi alvo preferencial e as forças da coligação internacional reivindicou já várias baixas importantes na estrutura do Estado Islâmico. 

Enquanto isso, caças franceses «Rafale» fizeram os primeiros raides aéreos, só no Iraque, destruindo um armazém usado por guerrilheiros do EI. 

Em sinal de retaliação, o Jund Al-Khilafa, grupo ligado ao Estado Islâmico, decapitou um turista francês raptado na Argélia, Herve Gourdel, de 55 anos. François Hollande já prometeu: «Os autores serão castigados». 

Parece estar a inaugurar-se uma nova etapa na estratégia de comunicação do EI. 

O foco deixa de estar somente nos norte-americanos e britânicos e passa a estar na noção de que «todos os que se oponham à construção do Califado devem ser punidos». 

A extrema violência das ações do EI já custou perdas relevantes para os radicais sunitas. Inicialmente, o Estado Islâmico teve apoio implícito da Arábia Saudita e Qatar, por interesse sunita em região que teve, nos últimos anos, avanço xiita importante (no Iraque pós-Saddam, no Irão e na Síria do alauíta Assad). 

Com o «turning point» da coligação liderada pelos EUA, que engloba Arábia Saudita e Qatar, o «monstro» do Estado Islâmico precisa de amigos, para utilizar expressão imortalizada no álbum da banda portuguesa «Ornatos Violeta». 

A continuação das decapitações poderá isolar ainda mais o grupo liderado por Al-Baghdadi. Mas depois da decapitação do britânico David Haines, os vídeos que se seguiram mostraram mensagens com um teor mais persuasivo e menos gráfico, na violência exibida. 

Num desses vídeos, o EI tenta até ridicularizar Obama, afirmando que o atual Presidente dos EUA é «mais tolo que George W. Bush» «Confiem em Allah, e matem-nos de qualquer maneira». 

Os apelos do EI a uma «jihad» global não deixa dúvidas: «Matem o descrente, seja ele civil ou militar, pois tomam as mesmas decisões». 

segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Histórias da Casa Branca: as botas já estiveram mais longe do chão

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 22 DE SETEMBRO DE 2014:


Há um cartoon de Nick Anderson, publicado no passado dia 18 no «Real Clear Politics» que mostra Obama a exortar o seu «mantra» de não colocar tropas no terreno («No boots on the ground!»), em equilíbrio instável, evitando a todo o custo pisar os pés no chão. 

A analogia faz cada vez mais sentido, analisando os últimos dias da luta pela «degradação, eliminação e destruição» do Estado Islâmico. 

A coligação internacional que os Estados Unidos se dispuseram a liderar tem cada vez mais apoios e o mais enérgico de todos eles foi o da França, que ensaiou ataques aéreos a zonas controladas pelo EI. 

Mas à medida que as ações no terreno aumentam de intensidade, parece também ganhar força a ideia de que haverá um ponto em que será mesmo necessário abdicar do tal princípio de Obama de «no boots on the ground». 

O general Martin Dempsey, «joint chiefs of staff» do exército americano, é da opinião que só se conseguirá vencer a batalha contra os radicais sunitas com o envio de tropas americanas para o terreno. 

O próprio David Cameron, PM britânico, deu sinais de equacionar uma solução que exija a colocação de homens no terreno. 

Mas esta primeira fase tem, para já, um plano de agravamento dos bombardeamentos aéreos que travem e degradem o território dominado pelo Estado Islâmico (que entre zonas do Iraque e da Síria, terá já uma área equivalente à do Reino Unido), enquanto a tal «coligação internacional» vai ganhando consistência e alargando aliados na região. 

Bombardeamentos americanos (e pontualmente franceses e britânicos), com a ajuda de combates no terreno dos iraquianos, dos curdos e dos sunitas moderados sírios anti-Assad? 

Samantha Power, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, explica, em entrevista a Chuck Todd no «Meet the Press» na NBC: «Não temos tido problemas em envolver outros países nesta coligação. A nossa estratégia assenta no esforço dos combatentes curdos e iraquianos no terreno, com os iraquianos a liderar. São eles que saberão como recuperar o território perdido para o Estado Islâmico. E o mesmo sucederá na Síria. Como é sabido, a nossa posição é a de apoiar a oposição moderada, profissionalizando essas forças. É essa a estratégia: usarmos as nossas capacidades únicas, aliadas às capacidades específicas de quem está no terreno». 

Para o terreno, por enquanto, a América de Obama só permite o envio de «especialistas militares» que instruam os combatentes locais. A embaixadora Power, que destacou o «apoio maciço» que o plano do Presidente teve nas duas câmaras do Congresso, desenvolve: «É do interesse da segurança americana travar e destruir o EI. No caso da oposição moderada síria, é preciso ver que estamos a instruir quem tem estado a combater o regime de Assad. E é preciso dizer que o Free Syrian Army e outras forças rebeldes moderadas sírias têm estado a combater o Estado Islâmico desde dezembro passado». 

Mas chegará esta junção para «destruir o Estado Islâmico», mesmo que num período de tempo de dois ou três anos? James Carville, estratega democrata, é mais pragmático: «Alguém acredita que daqui a 13 anos já não estaremos a combater fundamentalistas islâmicos»? 

A ambiguidade da Turquia (que apesar de ser interessada direta no travar do Estado Islâmico, que domina zonas próximas das suas fronteiras), é outra prova da dificuldade desta empreitada. Mesmo tendo enorme base militar americana no seu território, os turcos recusam-se a aderir à coligação, temendo represálias diretas do EI em zonas fronteiriças. 

George Will, na Fox News, acusa: «Há um toque de irrealismo na forma como se fala dos rebeles sírios. Creio que o general Dempsey quis dizer que, se for preciso, enviamos tropas para o terreno. O que não faremos é a Doutrina Powell. Colin Powell defendia que se vamos para algum lado, devemos usar a força toda». 

Histórias da Casa Branca: o plano que Obama não queria traçar

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 12 DE SETEMBRO DE 2014:


O «plano Obama» para travar o Estado Islâmico foi anunciado em «ambiente de 11 de Setembro», 13 anos depois do ataque às Torres Gémeas, mas implicará estratégia completamente diferente da que levou George W. Bush a declarar o ataque ao «Eixo do Mal» que apontava Iraque, Irão e Coreia do Norte. 

Os EUA têm que voltar a liderar um «combate ao terrorismo» na região do Médio Oriente porque falharam redondamente as campanhas do Afeganistão e no Iraque. 

O plano de Obama, que o Presidente garantiu não ser «uma nova guerra», mas antes uma «campanha de contra-terrorismo», que não implicará «boots on the ground» e será operação longa e complexa. 

Por muito que o Presidente dos EUA reforce a ideia que «será diferente das guerra do Iraque e do Afeganistão», este não deixa de ser o plano que Obama não queria traçar. 

Prémio Nobel da Paz nove meses depois ser eleito pela primeira vez, Obama tentou sempre demarcar-se do rótulo de «presidente de guerra», de que o seu sucessor tanto gostava. 

Usou até ao limite os trunfos das retiradas e da tese da «contenção», numa visão quase «declinista» do que deve ser poder americano, mas, uma vez mais, viu a força dos acontecimentos sobrepor-se à sua condição genética como líder de uma grande potência que pretendia deixar legado «realista». 

Contraditório? Talvez nem tanto. Basta reler as reflexões que deixou sobre essa dualidade «guerra vs paz», que marca todos os titulares da Casa Branca, e tem influenciado especialmente os seus dois mandatos, naquele que foi talvez o seu discurso mais brilhante e profundo: a aceitação do Nobel, a 10 de dezembro de 2009, em Oslo. 

A poucos meses de completar a retirada das tropas do Afeganistão, e já depois da saída total do Iraque, os EUA são forçados a «regressar» a lógica que vai contra a rota que terá garantido duas eleições presidenciais a Obama. 

Mudança de estratégia, em todo o caso. Mas com óbvias diferenças que podem mesmo fazer toda a diferença. 

Em primeiro lugar, no apoio da opinião pública americana. Sete em cada vez americanos sentia-se inseguro perante possível ataque do Estado Islâmico a solo dos EUA. Se até há poucos meses não existiria qualquer condição política para esta operação, ela passou a ser a ideia dominante. 

Depois, pelas razões que levaram à decisão. Se as «armas de destruição maciça» se mostraram argumento mentiroso para W. Bush depor Saddam, o horror das atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico confere um valor moral e civilizacional ao plano apresentado por Obama. 

Os EUA, que nos anos Obama foram sofrendo críticas crescentes de perda de poder e influência na cena mundial, têm uma oportunidade decisiva de provarem que continuam a ser o «ás de trunfo» quando chega a hora da verdade. 

Para Obama, era «make or break». Contestado a nível interno, com popularidade fraca, o Presidente viu-se na necessidade de tomar as rédeas. O sucesso ou insucesso da operação que agora começa poderá determinar a sentença final do seu segundo mandato presidencial. 

A questão é: será que o «plano Obama» para travar o Estado Islâmico não se prolongará para um período de tempo que já vai abranger a próxima presidência? 

Tendo em conta as primeiras análises do completo militar norte-americano, é uma hipótese que tem que ser considerada. 

A definição de Obama de que esta «não é uma guerra religiosa, mas uma guerra contra os terroristas» tem facilitado a construção da tal «grande coligação internacional». 

Nas horas que se sucederam à comunicação do Presidente, o secretário de Estado, John Kerry somou apoios em dez países árabes, pelo que a «campanha de contra-terrorismo» terá já perto de meia centena aliados. 

O alargamento dos ataques aéreos a zonas controladas pelo Estado Islâmico na Síria é o ponto mais crítico. O regime de Assad, beneficiário indireto da «destruição do Estado Islâmico», já avisou que isso seria «violação inaceitável» do espaço de soberania sírio, visão que Moscovo partilhará.

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

Histórias da Casa Branca: a última oportunidade de Barack Obama

TEXTO PUBLICADO A 10 DE SETEMBRO DE 2014 NO SITE TVI24.IOL.PT:

Barack Obama vai apresentar, esta noite (madrugada em Lisboa) o seu plano de combate à ameaça do ISIS (Islamic State of Irak and Syria), agora mais conhecido por Estado Islâmico. 

Não é apenas mais um discurso de um Presidente que chegou ao cargo, em grande parte, suportado por uma capacidade oratório invulgar. Será o ponto mais decisivo do segundo mandato presidencial de Obama. 

E, possivelmente, será a última oportunidade que o Presidente dos EUA tem de evitar que o seu segundo mandato termine com a sombra do falhanço. 

A ameaça do ISIS conseguiu mexer de tal forma com os espíritos dos americanos que colocou, em poucas semanas, sérios problemas à Administração Obama.

As pesquisas apontam para dados preocupantes para a posição do Presidente: sete em cada dez americanos considera «possível» que o ISIS ataque solo dos EUA se nada for feito; percentagem idêntica considera que Obama tem sido «demasiado cauteloso» na abordagem deste problema. 

Sondagem do Wall Street Journal e NBC coloca a taxa de aprovação de Obama em mínimos de 40%. O sinal foi claramente dado: o tempo de «pensar a estratégia» passou. Há que agir e rápido, isto porque uma boa parte do sistema político (democratas incluídos) e a maioria da opinião pública aponta o dedo ao Presidente por ter demorado na resposta, dando espaço ao recrudescimento do horror do ISIS. 

A vontade política do Presidente em avançar para novo plano em larga escala para o Médio Oriente seria muito pouco superior a zero. Só que, a este nível, há momentos em que a realidade ultrapassa agendas políticas ou princípios orientadores. 

A visão de Obama para a política externa, nos últimos anos, tem sido a de «não fazer coisas estúpidas», numa perspetiva minimalista de quem foi o principal herdeiro político dos erros de George W. Bush.

Se esta nova crise no Iraque e na Síria é, em parte, consequência do falhanço americano na guerra de 2003, é verdade também que Obama, como sucessor de Bush, não foi capaz de gerir da melhor forma a retirada, permitindo que, no Iraque, se prolongasse um governo fraco, do xiita Nouri Al Maliki, que se mostrou impotente para travar a ameaça extremista sunita. 

O momento, porém, não é de apontar culpas. É de agir. 

E tendo em conta as informações que assessores da Casa Branca têm libertado nas últimas horas, há duas grandes ideias que irão dominar a intervenção do Presidente: Obama entende que não necessita da luz verde do Congresso (embora tenha marcado reuniões com os líderes das duas câmaras nas horas que antecedem a comunicação) e enquadra o seu plano numa «vasta coligação internacional», que obviamente abarca os países da NATO mas também aliados estratégicos e/ou pontuais na região. 

Deverá envolver o agravamento dos bombardeamentos já iniciados nas últimas semanas. E a ação será definida e liderada pelos Estados Unidos, mas os EUA não vão sozinhos. Terão o apoio do Reino Unido, também da França e de outros países no quadro da NATO. 

Não haverá, para já, «boots on the ground» (e daí não obrigar o Presidente a pedir autorização ao Congresso a «ir para a guerra»). 

Mitch McConnell, líder da minoria republicana no Senado, discorda: «Obama devia procurar apoio para a sua ação militar. Seria do interesse dele e do interesse da nação que os representantes deste país soubessem ao pormenor o que vai ser feito».

E fora dos EUA e do arco atlântico? A Turquia será fundamental. E, claro, veremos nos próximos tempos essa ironia da história que é ver o Irão e a Síria da Assad, regimes xiitas (no caso de Assad, alauíta, ramo xiita), que têm, neste tabuleiro, em comum com os EUA o facto de estarem sob forte ameaça dos jihadistas sunitas dos ISIS.

A geoestratégia nunca é uma história com um fim previsível. Na verdade, nunca tem fim. 

terça-feira, 9 de Setembro de 2014

Histórias da Casa Branca: consenso contra a barbárie do ISIS

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 9 DE SETEMBRO DE 2014:


Barack Obama anuncia esta quarta o seu plano para travar o ISIS. 

Mas o Presidente dos EUA já começou a preparação da opinião pública e dos outros atores políticos do sistema americano para o que aí vem, através de declarações públicas nos últimos dias e da divulgação de um vídeo chocante, com imagens de ações feitas pelos jihaditas sunitas.

Durante o dia de hoje, Obama vai reunir-se com os líderes do Congresso, para explicar as linhas de força do seu plano para combater o ISIS. A estratégia ainda não foi reveladas, mas tudo indica que passará pelo agravamento dos bombardeamentos e pelo envolvimento mais ativo de parceiros dos EUA (sobretudo Reino Unido e França), que também tenham interesses diretos na região. 

Tropas no terreno, para já, é cenário afastado. 

Mas também é provável que o Presidente lance amanhã o aviso: a ameaça do ISIS é demasiado séria para se resolver com meia dúzia de ataques aéreos. O problema é complexo, vai demorar a resolver-se e até pode implicar um período de tempo mais largo do que o final do segundo mandato presidencial de Barack Obama.

Como foi possível que grupo tão extremista e perigoso tenha conseguido um domínio tão significativo de um território tão vasto e estratégico?

Tiago Moreira de Sá, especialista em política internacional, observou em entrevista recente à Rádio Renascença: «A retirada das tropas norte-americanas do Iraque, sem que houvesse mínima capacidade militar digna do nome e, pior ainda, nem sequer existisse na prática um governo que merecesse o nome - e a forma como al-Maliki alienou sectores fundamentais da sociedade - agravou ainda mais o cenário. Este ponto é fundamental: essa alienação já tinha começado antes, mas prosseguiu durante a governação do xiita Nouri al-Maliki. Grande parte dos sunitas, alguns deles sunitas seculares e moderados que tinham feito parte do governo de Saddam Hussein, ficaram sem saída. Muitos destes sunitas nem sequer tinham simpatia pelo ISIS, nem sequer eram particularmente radicais nesta lógica de confrontação religiosa, mas preferiram uma aliança tática com o Estado Islâmico, contra os xiitas no poder em Bagdad.»

A escalada da barbárie foi, nas últimas semanas, o maior sinal da força e da capacidade ameaçadora do ISIS. Mas, a médio prazo, poderá ser, também, a razão da queda do Estado Islâmico. 

Se o paradigma dominante nas opiniões públicas ocidentais, depois das guerras no Iraque e no Afeganistão na primeira década do século XXI, era a de «retirada», a verdade é que quanto mais se conhecem as atrocidades feitas pelo ISIS (violações em massa, decapitações, perseguição a minorias), mais condições políticas há para uma «grande coligação internacional» que trave os radicais sunitas. 

Obama não quer «boots on the ground» e vai reforçar a ideia de que os EUA não podem resolver isto sozinhos. Mas será que o Presidente demorou a «encontrar uma estratégia»? 

Marco Rubio, pretendente a sucessor de Obama na Casa Branca, senador republicano da Florida, é duro nas palavras: «O Presidente tem cometido erro sobre erro na sua política externa. Temos ouvido mensagens contraditórias por parte da administração. Eles não têm uma estratégia: vamos conter o ISIS ou vamos derrotá-los e eliminá-los?»

Dianne Feinstein, senadora democrata da Califórnia, congratulou o Presidente «por estar finalmente na ofensiva contra o ISIS», de que é apoiante desde a primeira hora (até foi a responsável pelas cerimónias da primeira tomada de posse), mas admitiu: «Pode ter sido uma decisão demorada. A América tem assumir a liderança desta questão».

Mike Morell, antigo diretor-adjunto da CIA, avisa, em declarações à CBS: «Travar o ISIS significa retirar-lhes território e passar a liderar as zonas que eles controlam».

Será possível fazê-lo sem «sujar as botas»? 

segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

Histórias da Casa Branca: o fim do «soft power»?

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 8 DE SETEMBRO DE 2014:


Como travar o ISIS sem «regressar» ao Iraque? 

Terá a ameaça jihadista sunita retirado as últimas esperanças de consumar a tendência de «retirada» americana?

Obama tem tentado, nas últimas semanas, preparar a opinião pública internacional, e sobretudo norte-americana, para algo que, neste momento, parece inevitável: vai haver um novo envolvimento em grande escala dos meios militares dos EUA e dos seus aliados no Iraque e na Síria. 

Falta saber (e não é um pormenor técnico) se essa ação se limitará a bombardeamentos cirúrgicos (ainda que em grande número) ou se vai mesmo obrigar ao envio de tropas de no terreno. 

Em entrevista recente à NBC, o Presidente Obama garantiu: «Estou a preparar o país para lidarmos com a ameaça. Na quarta-feira vou fazer um discurso e descrever qual será o nosso plano daqui para a frente. Mas isto não vai ser anúncio sobre tropas terrestres norte-americanas. 
Isto não é o equivalente à guerra do Iraque. É semelhante às campanhas de combate ao terrorismo que temos vindo a desenvolver de forma consistente ao longo dos últimos cinco, seis, sete anos». 

A preocupação do presidente norte-americano em garantir que não será «uma nova guerra do Iraque» já tinha sido dominante há cerca de um ano, quando esteve na iminência de fazer um ataque à Síria de Assad. 

Obama marcou a primeira fase da sua presidência por uma estratégia de «contenção» e «retirada». Os EUA lideravam «na retaguarda» (Líbia) e pelo «soft power», já não usando a força (retiradas do Afeganistão e do Iraque). 

A ameaça galopante do ISIS voltou a baralhar tudo isto. «Se mais não tivesse mostrado, os actos de horror e violência bárbara do ISIS criaram um rápido consenso político e acrescentaram pressão no Presidente Obama: a cautela perante o horror, simplesmente, não chega», observa John King, correspondente sénior da CNN na Casa Branca. 

Será o fim do «soft power» enquanto instrumento dominante para resolução das grandes questões externas para a atual administração americana? 

Obama, que voltou a não querer precipitar-se perante as pressões, não teve pruridos em assumir, na semana passada, que «ainda não tinha estratégia» para combater o ISIS. Preferiu ir primeiro à Cimeira da NATO, convocou as obrigações dos seus principais aliados internacionais (o Reino Unido e a França disseram imediatamente que sim) e em Tallin notou, à margem da questão ucraniana, que dominava a conversa com o homólogo estónio: «O nosso objetivo é claro: degradar e destruir o ISIS, a ponto de deixar de ser uma ameaça. Vai demorar tempo e vai exigir um grande esforço». 

O Presidente americano, mesmo insistindo na ideia de que não estaremos perante uma «nova guerra do Iraque» (continua a vontade zero em voltar a enviar «boots on the ground»), avisou: «Vamos precisar de usar todos os instrumentos que temos à disposição para travar o ISIS, para pôr termo à ameaça que eles representam à nossa segurança nacional». 

A vida dá muitas voltas e a política internacional, então, dá ainda mais. 

Há um ano, a Síria levava os norte-americanos a apoiar os rebeldes sunitas, que combatiam o regime de Assad, da dinastia alauíta, ramo xiita do Islão.

Mas a intervenção americana em Damasco «borregou» à última hora, perante a entrada em jogo de Putin e da mediação que levou à entrega das armas químicas, sob supervisão da ONU.

Consequência: a guerra civil na Síria e o degradar da situação no Iraque (governo xiita de Al Maliki, apoiados pelos americanos, sem capacidade de dominar cidades importantes e zonas crucais) foram campo fértil ao recrudescimento do ISIS.

Inimigos recentes (Irão, a Síria de Assad) tornam-se, agora, aliados estratégicos dos EUA para travar os jihadistas sunitas.

Nunca digas «desta água não beberei». No Médio Oriente, isso é mesmo uma impossibilidade.

Histórias da Casa Branca: estratégias de contenção

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 29 DE AGOSTO DE 2014

«Não quero pôr o carro à frente dos bois. Não temos ainda uma estratégia para combater o ISIS. Acho que o que vimos nas últimas notícias e nos últimos relatórios sugere que alguns tipos estão a chegar um pouco mais à frente donde estamos¿ E temos que ter a certeza que temos planos claros e é isso que estamos a desenvolver. Vou consultar o Congresso, para ter a certeza de que as suas vozes dos congressistas são ouvidas. Mas não faz sentido que exija ação ao Congreso antes de saber exatamente o que é preciso fazer para que o trabalho saia bem feito»
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos 

Para republicanos como John McCain, «não ter uma estratégia para combater o ISIS» é uma das razões para o fracasso americano no Iraque e na Síria. 

Mas para o Presidente trata-se de mera precaução.

O excerto com que esta crónica começa mostra, ao limite, a estratégia de contenção de Obama para a situação mais explosiva do tabuleiro internacional.

Por parte dos congressistas republicanos, a pressão não podia ser maior. Mitch McConnel, líder da minoria republicana no Senado, voltou a encostar o Presidente à parede: «É urgente que a administração desenvolva uma estratégia regional, trabalhe com os nossos aliados, derrote o ISIS e use em pleno a sua autoridade para atacar a força do inimigo».

Na Ucrânia, já se percebeu que nem os receios dos serviços de inteligência americanos sobre invasão que esteja a ser preparada pela Rússia (que nem as conversações de Minsk entre Poroshenko e Putin, aparentemente com sinais positivos quanto a um futuro cessar-fogo, dissiparam), fará a América de Obama avançar para uma situação de confronto bélico com Moscovo.

Outro tipo de confronto, a nível diplomático, já decorre há uns meses e teve exemplo especialmente vincado na intervenção de Samantha Power, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, em Conselho de Segurança da ONU, sobre a Ucrânia: «A Rússia, em matéria de Ucrânia, tem dito tudo menos a verdade. Tem manipulado. Tem ocultado. Tem mentido descaradamente. Por isso, temos aprendido a avaliar a Rússia pelas suas ações e não pelas sua palavras. E nas últimas 48 horas, as ações dos russos na Ucrânia têm falado de forma mesmo muito sonora».

A embaixadora Power referia-se à entrada ilegal de tropas russas em espaço ucraniano, agravada nos últimos dias, enquanto, na Bielorrússia, Poroshenko e Putin até pareciam começar a entender-se. Tremenda ambiguidade. 

No plano ucraniano, a estratégia da Administração Obama tem sido, por isso, dual: quase nada em termos bélicos, quase tudo na agressividade diplomática e nas sanções económicas (já a um nível significativo para a elite de Moscovo, com consequências internas no apoio político de Putin).

O ISIS é a urgência do momento. A decapitação de James Foley mudou radicalmente a posição de Washington? Nem por isso. É certo que, nos últimos dias, o «exército islâmico do Levante» foi alvo de bombardeamentos cirúrgicos, mas a ameaça continua iminente. E ninguém é capaz de dizer que está controlada. 

Também no plano interno, o Presidente está em recuo, para que daqui a algum tempo possa atacar. Em dois temas, sobretudo: imigração e alterações climáticas. 

Longe de ter condições para uma Reforma de Imigração nos moldes que a sua agenda política exige, Obama e os democratas tentaram, nos últimos meses, aprovar leis parcelares no Congresso, que permitissem que crianças não fossem deportadas. Mas nem isso passou. 

E no plano das alterações climáticas, a Administração Obama está a estudar uma forma de contornar o Congresso, de modo a poder assinar próximo acordo internacional, previsto para 2015, para que não se repita o chumbo americano a Quioto, em 1997.

Na política americana, saber esperar é uma arte. Será que Barack Obama leva isso demasiado a sério?

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Histórias da Casa Branca: Hillary Clinton marca território

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 26 DE AGOSTO DE 2014:

Hillary Clinton vai ser a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos da América?

É possível, mas está longe de ser uma certeza.

A 27 meses das eleições presidenciais, os dados são idênticos ao que tem acontecido desde o início do ano: Hillary tem vantagem tão gigantesca no lado democrata (50 a 60 pontos de diferença sobre qualquer eventual adversário nas primárias do seu partido) que nos «media americanos» já é apresentada como «presumível nomeada presidencial» para 2016.

Do lado republicano, cenário oposto: vários candidatos, nenhum deles a conseguir assumir condição de «frontrunner». 

Perante este quadro, Hillary, mesmo sem ter que responder «sim» à pergunta que já lhe fizeram mil vezes («vai ser candidata à presidência em 2016?»), já começou o seu périplo mediático para lançar a candidatura. 

No tal estatuto não muito definido, mas repetido vezes suficiente para ter vida própria, de «presumível candidata democrata», Hillary toma posições sobre os temas que dominam a agenda da alta política americana. Lança críticas. Dá sugestões. Provoca reações de adversários e apoiantes. Sim, isso mesmo: como se já fosse a nomeada presidencial com legitimidade do seu partido para batalhar pela sucessão de Obama. 

Como antigo elemento de uma Administração Obama, Hillary tem tido, em termos gerais, o cuidado de mostrar concordância com o rumo que tem sido tomado pelo Presidente. 

Mas essa atitude teve uma mudança notada por todos, na entrevista dada à «The Atlantic», já aqui abordada no «Histórias da Casa Branca».

Enquanto no Iraque e na Síria o ISIS escalava perigosamente a violência das suas ações, e antes ainda da divulgação do vídeo da decapitação do jornalista americano James Foley, Hillary lançou uma espécie de «bomba» política, ao demarcar-se do «don¿t do stupid stuff» (não façam coisas estúpidas), frase aparentemente redutora quando se fala de tema tão complexo, e que chegou a ser apontado por Obama como princípio orientador em política externa. 

«Grandes nações precisam de princípios organizadores. 'Não fazer coisas estúpidas' não é um princípio organizador», comentou Hillary, nessa entrevista. Os analistas, desde aí, têm reforçado esse distanciamento. 

Será que a futura-candidata-presidencial Hillary já sente a necessidade de escolher a herança dos anos Obama (separando o que não concorda e querendo ficar apenas com o que considera positivo?).

Chris Cillizza, no Washington Post, observa: «Hillary Clinton fez uma jogada estratégica para começar a distanciar-se da política externa do Presidente Obama. Falhou.» 

A equipa de Hillary, preocupada com as reações do «Mundo Obama» das críticas dela ao «não façam coisas estúpidas», libertou uma declaração para acalmar tensões. «A secretária Clinton ligou ao Presidente para assegurar que ele saiba que nada do que ela disse tinha como intenção atacá-lo a ele, a alguma coisa que tenha feito, ou às suas políticas, ou à sua liderança», garantiu o porta-voz de Hillary Clinton, Nick Merril. 

Um dos mais proeminentes membros do tal «Mundo Obama» é David Axelrod, talvez a pessoa mais próxima do Presidente, antigo conselheiro sénior da Casa Branca e principal estratega das duas eleições presidenciais de Obama. 

Em pleno rescaldo do «episódio Hillary/entrevista à Atlantic», «Ax», como lhe chama Obama, fez twitt para esclarecer: «Apenas para clarificar: «Don¿t do stupid stuff» significa coisas como Iraque na primeira intervenção, o que foi uma coisa trágica». A observação não é ingénua: Axelrod, que conhece ao pormenor todas as possíveis fragilidades do percurso político de Hillary (foi ele que estudou a forma de ataca-la nas primárias de 2007/2008), tentou lembrar, de forma indireta, que a então senadora Clinton não se opôs, na votação no Capitólio, à intervenção de Bush no Iraque, em 2003.» 

Histórias da Casa Branca: a Síria, o ISIS e o «novo Iraque» de Obama

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 22 DE AGOSTO DE 2014:

«Os jihadistas sunitas, que tomaram grandes partes de território iraquiano e sírio, podem ser controlados»
General Martin Dempsey, chefe do Estado-Maior das forças armadas americanas

«Quanto mais Obama retardar a ofensiva, mais o ISIS ajusta as suas posições e mais difícil será reagir. Uma das decisões que ele tem que fazer é atacar o ISIS na Síria porque eles estão a avançar o equipamento capturado para lá e estão a batalhar lá e têm enclaves lá»
Senador John McCain, do Arizona


O «novo Iraque» de Obama promete ser bem mais difícil e sangrento do que a retirada das tropas, êxito aparente na primeira fase desta presidência, decorrência de promessa eleitoral que ajudou o atual inquilino da Casa Branca a ser eleito pela primeira vez, em 2008.

Se a «contenção» anunciada pós-Bush estava ao favor da corrente da opinião pública, o novo quadro na região anuncia-se bem mais complexo, com riscos enormes de redundar em novo banho de sangue.

Podia até ser tudo o que não era preciso agora, com as crises na Ucrânia e em Israel/Gaza ainda em fases de especial tensão. 

Mas o que se passou nas últimas semanas, com o avanço do ISIS capaz de dar aos fundamentalistas sunitas o controlo de cerca de um terço do Iraque e de partes da Síria, exige resposta rápida.

Obama autorizou bombardeamentos cirúrgicos em zonas controladas pelo ISIS e isso, de acordo com as últimas informações, terá enfraquecido seriamente as posições do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS, no acrónimo anglófono).

Mas a ação americana surgiu tarde. O aumento brutal no número de vítimas mortais, com especial incidência na população cristã do Iraque e nos «yazidis», foi tornando o avanço do ISIS insuportável aos olhos dos ocidentais. 

A decapitação do jornalista americano James Foley, amplamente difundida em vídeo de uma violência chocante, pode ser um «turning point» neste enorme problema. Uma espécie de «abate do avião da Malásia» para as posições russas na Ucrânia, versão ISIS no Iraque e na Síria. 

Se parte da opinião pública americana se revia numa visão de «containment» da administração Obama, a urgência do «regresso», não com tropas no terreno mas ações militares cada vez mais agressivas, passou a ser dominante. 

John McCain, adversário de Obama nas eleições de 2008, não se tem cansado, nos últimos dias, em pressionar o Presidente a agir de forma mais dura contra o ISIS e a alargar o seu raio de ação à Síria. 

As chefias militares têm, de forma mais matizada, mostrado sinais de estarem prontas para isso. A leitura do general Martin Dempsey aponta para vantagens identificadas em travar o ISIS pela via dos bombardeamentos. 

Ed Rogers, no Washington Post, postula: «Em política, a regra é 'quando estás em apuros, cria alguma agitação'. Embora o presidente tenha sido hesitante em usar a força, ação determinada no Médio Oriente, depois da execução nojenta do jornalista James Foley é um grande motivo para mostrar uma posição firme. O presidente pode ¿ e deve ¿ aproveitar o momento; mas este momento, como todos os momentos nos dias que correm, é perigoso e incerto».

Os EUA estão, pois, de regresso, e em força, à arena iraquiana. E serão obrigados a entrar, cada vez mais, com armas e até homens, no atoleiro sírio. 

A vontade política desta administração será pouco mais do que zero, mas há momentos em que o «soft power» (por muito melhor que seja em situações de aparente normalidade) não chega.

Nunca é prudente desvalorizar o lado imprevisível das relações internacionais.